A capital amazonense voltou a amanhecer encoberta por fumaça nesta semana. Na manhã desta sexta-feira, Manaus liderava o ranking de cidades com o ar mais poluído do Brasil, segundo a plataforma internacional IQAir, e bairros como Morro da Liberdade e Educandos chegaram a registrar até 211 µg/m³ de partículas poluentes — o Sistema Selva, da UEA, considera boa a qualidade do ar apenas até 25 µg/m³. A situação levou à suspensão de atividades presenciais na Ufam, no Ifam e na UEA.
O cenário não é isolado. De 1º de julho a 23 de setembro, o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas atuou em 16.470 focos de incêndio, e não há previsão de chuva para os próximos dias.
Diante da crise anunciada, o deputado federal Amom Mandel (Republicanos/AM) protocolou ainda em julho o Requerimento de Informação nº 2184/2026, dirigido ao ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco. O documento, com 19 questionamentos, cobra informações sobre todos os recursos federais e do Fundo Amazônia destinados ao Amazonas em 2024, 2025 e 2026 para prevenção e combate a incêndios florestais, queimadas e desmatamento.
Entre os pontos centrais está o ProAmazon – Projeto de Combate a Incêndios e Desmatamento no Amazonas, financiado pelo Fundo Amazônia para estruturar o Corpo de Bombeiros. O projeto, de R$ 45 milhões, é financiado pelo Fundo Amazônia para fortalecer o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas. Segundo os registros oficiais do Fundo, R$ 34,7 milhões já haviam sido desembolsados até março de 2026, equivalentes a 77% do valor contratado. O programa prevê veículos especializados, equipamentos de combate a incêndios, drones, proteção individual, capacitação de agentes e construção de novas bases operacionais.
O parlamentar quer saber quais parcelas já foram desembolsadas, quais veículos, drones, equipamentos e bases operacionais foram de fato entregues, quais municípios foram contemplados e qual o percentual de cumprimento das metas. O requerimento também pergunta se houve antecipação ou reforço dos recursos diante dos alertas de El Niño e estiagem severa, e se foram identificados atrasos, entraves licitatórios ou problemas de prestação de contas.
Aeronave de R$ 2,1 milhões sem licitação
As perguntas ganham urgência diante de uma contratação recente do Governo do Amazonas. Em meio ao avanço das queimadas, o estado contratou uma empresa de Rondônia por R$ 2,1 milhões para operar uma aeronave de combate a incêndios, com piloto e combustível incluídos, sem licitação, pela Defesa Civil. A contratação foi publicada no Diário Oficial por meio da Portaria nº 118/2026, assinada em 3 de outubro, e não detalha quantas horas de voo estão previstas, quais regiões serão atendidas nem quando a operação começaria. Segundo dados da Receita Federal, a atividade principal da empresa contratada é pulverização e controle de pragas agrícolas. O Governo do Amazonas diz que a aeronave já auxiliou operações em Parintins, Iranduba e Itacoatiara, além de um incêndio em área de descarte irregular de resíduos no Distrito Industrial de Manaus.
Antes disso, em 18 de setembro, o Corpo de Bombeiros havia pedido ao Ciman Federal, ligado ao Ministério da Justiça, a locação de duas aeronaves de combate a incêndio florestal para atuar até o fim de novembro.
"Desde julho, alertamos que a seca e o El Niño trariam um cenário grave. O dinheiro existe: há recursos federais e do Fundo Amazônia destinados ao Amazonas. O que a população quer saber é porque, com tudo isso, Manaus continua respirando fumaça e o estado precisa recorrer a contratações emergenciais milionárias e sem licitação. Fiscalizar não é opcional, é obrigação", afirma Amom Mandel.
O requerimento solicita ainda informações sobre a articulação dos recursos federais com o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas do Amazonas (PPCDQ-AM) e com a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, além da previsão de novos aportes para 2026 e 2027.