Foi numa noite morna de domingo, em Brasília (DF), quando retornávamos para o hotel onde estávamos hospedados, que Adriana Brasil chamou a minha atenção apontando pela janelinha do carro um hotel antigo localizado às margens do Lago Paranoá e próximo do Palácio da Alvorada.
— Olha lá! É o Brasília Palace, o mais antigo hotel de Brasília. Quer ir lá conhecer?
E antes que eu respondesse ela atiçou a minha curiosidade de jornalista.
— Aí tem um documento histórico, sabia?
Claro que eu não sabia. Mas ela, sim, pois passou toda a infância e adolescência em Brasília.
— Diz aí, o que é? Algum acervo sobre a passagem do Vinícius de Moraes e do Tom Jobim por Brasília, pra compor a Sinfonia da Alvorada?
— Não, não... É outra coisa, você vai ver,
Deixamos o carro no estacionamento e entramos no prédio histórico. Idealizado pelo presidente Juscelino Kubitschek, projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1958, o Palace foi o primeiro hotel de luxo de Brasília. Passamos pelo restaurante (considerado “divino” pelos críticos) que recebeu o nome do arquiteto, vimos os famosos ladrilhos de Athos Bulcão, painéis com fotografias de famosos que se hospedaram por lá e a capa emoldurada do jornal Correio Braziliense estampando a manchetes do incêndio de grandes proporções que destruiu o terceiro andar do hotel no dia 21 de abril de 1978.

Por conta do sinistro, o Brasília Palace ficou abandonado por décadas. Foi reformado e aberto em 2006 e atualmente mantém o acervo maravilhoso de móveis e os famosos ladrilhos de Athos Bulcão.
Mas ainda não era isso que Adriana queria me mostrar. Ao descer para o estacionamento sob uma cobertura de concreto, bem ao estilo Niemeyer, deduzi, de longe, que aquilo que eu acabara de ver era a grande surpresa que minha mulher me reservara:
— Lá está ela! A rural do JK! O carro em que o presidente andou o por Brasília pela última vez!
Adrianinha conhecia a visita histórica de JK. Mas não as circunstâncias e os pormenores. E eu queria saber muito mais.
Na rural, Juscelino não sabia que aquela seria a última visita em vida que faria à cidade que construiu
Depois de fotografar a velha rural Willis que Juscelino utilizara, deparei com uma pilha de um folheto contendo algumas informações, arrumados propositadamente ao lado do velho veículo, impecavelmente conservado. Ainda a mantinha a placa JKO 1964 (Juscelino Kubitschek de Oliveira) e o ano do veículo que, por ironia do destino, é o mesmo ano do golpe quem cassou o ex-presidente.

Era o dia 7 de janeiro de 1972, após a cassação de seus direitos pela ditadura que Juscelino decidiu visitar o Distrito Federal. Não sabia que aquela seria a última visita em vida que faria à cidade que construiu. Seria uma visita clandestina por conta de sua situação política. Os militares proibiram ele de visitar Brasília. JK chegou a bordo de um de avião bimotor prefixo PP-SIU da empresa Táxi Aéreo AERO-SITA, do Rio de Janeiro, que pousou às 11 horas no aeroporto de Luziânia, cidadezinha próxima a Brasília.45 minutos depois decolou para um sobrevoo sobre a cidade. “Naquele momento manifestou seu pesar ao comprovar o desvirtuamento da ocupação urbana não prevista nos arredores do Plano Piloto”, diz a publicação.
Depois de almoçar na fazenda de um amigo, onde matou a saudade do frango ao molho pardo e tutu de feijão, quiabo e polenta, JK e uma comitiva de amigos entraram na cidade que ele era proibido de visitar. Por ser bastante querido em Brasília, o governo militar temia que ele pudesse trazer algumas recordações e criasse um clima de comoção. Para não reconhecido pelos órgãos de repressão da ditadura, Para não cair nas garras dos órgãos de repressão, Juscelino visitou a cidade às escondidas. Passeou na W3 Sul, no Eixo Monumental e na Catedral com um chapéu de palha para esconder o rosto, uma roupa e um blusão. Assim, passeou pela W3 SU, Eixo monumental, e ficou admirado com a cidade que ele construiu. Era um dia chuvoso e os que acompanhavam o ex–presidente, contam que JK chorou muito ao reencontrar a cidade que havia criado.
Ao ouvir do Dr. Manuel que até aquele momento a Catedral de Brasília nunca estivera lotada, Juscelino respondeu:
— Mas com certeza ela ficará no dia da minha morte.
De fato, o presidente Juscelino Kubitschek só retornaria a Brasília para ser sepultado na cidade que construiu. Ele morreu no dia 22 de agosto de 1976 5 num acidente de automóvel no quilômetro 165 da via Dutra, próximo à cidade de Rezende (RJ). JK viajava de São Paulo para o Rio no banco traseiro de um automóvel Opala dirigido por seu secretário e motorista particular, Geraldo Ribeiro. O carro colidiu de frente com um caminhão, provocando a morte instantânea de seus ocupantes.

No final da tarde de terça-feira, 24 de agosto, o corpo foi transportado para Brasília. Na saída para o sepultamento no cemitério campo da esperança uma multidão impediu que o caixão fosse levado para o cemitério em um caminhão do Corpo de Bombeiros.
— O povo leva! –, gritaram milhares de populares. Cerca de 200 mil pessoas fizeram o trajeto de oito quilômetros da catedral ao cemitério, levando o caixão sobre os ombros. Cantaram o Hino Nacional e "Peixe Vivo", do folclore de Diamantina (MG), cidade natal do ex-presidente, que ele costumava cantar
Os funerais e o enterro do ex-presidente reuniram multidões no Rio e em Brasília. Como ele dissera naquela visita em 1972, nesse dia, não só a catedral ficou lotado como também os arredores do Campo da Esperança. Foi uma das maiores homenagens públicas recebidas por um político brasileiro desde a morte de Getúlio Vargas.

