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EDITORIAL: Honda e a memória curta da Zona Franca de Manaus

Ao receber Flávio Bolsonaro em sua fábrica de Manaus, a Moto Honda oferece palanque a um representante do grupo político que colocou em risco justamente o modelo econômico que permitiu à empresa crescer, investir e gerar milhares de empregos no Amazonas.

Empresa ganhou impulso especialmente durante os governos Lula e Dilma - Arte: marioadolfo.com

Há algo profundamente contraditório na imagem de Flávio Bolsonaro sorrindo dentro da fábrica da Moto Honda da Amazônia, em Manaus. Não por causa de uma divergência partidária qualquer. Empresas recebem políticos de diferentes campos ideológicos e isso faz parte da democracia. O problema é outro: a Honda abriu suas portas para um representante direto do grupo político que, quando esteve no poder, promoveu uma das maiores ameaças recentes à competitividade da Zona Franca de Manaus.

A Honda não é uma empresa qualquer dentro desse modelo. Instalou-se no Polo Industrial de Manaus em 1976, cresceu amparada pelos incentivos fiscais da Zona Franca e transformou sua fábrica amazonense em uma gigantesca operação industrial. Hoje, emprega mais de 9 mil pessoas diretamente em Manaus e já produziu mais de 30 milhões de motocicletas no Amazonas. É difícil encontrar exemplo mais evidente de uma multinacional que prosperou aproveitando as condições especiais criadas para compensar as enormes desvantagens logísticas e geográficas da região.

E essa história ganhou impulso especialmente durante os governos Lula e Dilma. Em 2010, ainda no segundo governo Lula, a Honda inaugurou uma nova linha de produção em Manaus após investimento de R$ 90 milhões, com previsão de criação de 760 empregos. No auge do mercado, em 2011, já no governo Dilma, a fábrica chegou a aproximadamente 12 mil trabalhadores e produzia até 7 mil motocicletas por dia.

Os anos seguintes foram de retração do mercado brasileiro de motocicletas, e seria intelectualmente desonesto atribuir essa queda exclusivamente a um governo. Mas existe um fato político incontornável: durante o governo Jair Bolsonaro, a Zona Franca sofreu um ataque direto à sua competitividade.

Ao reduzir nacionalmente as alíquotas do IPI, o governo Bolsonaro diminuiu justamente o diferencial tributário que ajuda a manter fábricas em Manaus. Não se tratava de discussão abstrata sobre impostos. Na prática, quanto menor a diferença entre produzir dentro e fora da Zona Franca, menor é o incentivo para uma indústria enfrentar milhares de quilômetros de distância dos principais mercados consumidores, custos logísticos elevados e todas as dificuldades inerentes à produção no meio da Amazônia.

O conflito foi tão sério que chegou ao Supremo Tribunal Federal. Foi necessário recorrer à Justiça para preservar a competitividade dos produtos fabricados na Zona Franca diante das medidas adotadas pelo governo Bolsonaro.

É esse histórico que torna constrangedora a fotografia de Flávio Bolsonaro passeando pela Honda.

Ninguém está exigindo que uma empresa privada se transforme em comitê eleitoral do PT, de Lula ou de qualquer outro partido. A Honda tem todo o direito de receber candidatos e representantes de diferentes correntes políticas. Mas uma coisa é diálogo institucional. Outra é oferecer fábrica, trabalhadores e linha de produção como cenário para alguém construir uma imagem de proximidade com um modelo econômico que seu próprio grupo político colocou em risco.

A contradição se torna ainda maior quando observamos o momento atual. Com Lula novamente na Presidência, a Honda anunciou um ciclo de R$ 1,6 bilhão em investimentos no Brasil até 2029, concentrado principalmente na fábrica de Manaus, com expansão da capacidade produtiva e geração de novos empregos.

Não é necessário ser lulista para reconhecer esses fatos. Aliás, defender a Zona Franca jamais deveria ser uma questão de esquerda ou direita no Amazonas. É uma questão de sobrevivência econômica.

O Polo Industrial sustenta uma enorme cadeia de empregos diretos e indiretos, movimenta comércio, serviços, logística e arrecadação e continua sendo a principal âncora econômica de Manaus. Pode e deve ser aperfeiçoado, diversificado e cobrado por mais inovação e desenvolvimento regional. Mas destruir sua vantagem competitiva sem apresentar alternativa econômica para o Amazonas seria uma irresponsabilidade monumental.

Por isso, a direção da Honda deveria conhecer melhor do que ninguém o peso político das imagens produzidas dentro de sua fábrica.

Existe uma espécie de amnésia recorrente no Brasil: usufrui-se de uma política pública quando ela gera emprego, investimento e lucro; depois, esquece-se rapidamente de quem a protegeu e de quem tentou desmontá-la.

A visita de Flávio Bolsonaro à Honda expõe exatamente essa contradição.

A empresa que construiu quase meio século de história dentro da Zona Franca abriu as portas para um representante do bolsonarismo posar justamente diante das máquinas que existem ali porque Manaus possui incentivos fiscais diferenciados.

A Honda pode receber quem quiser.

Mas o Amazonas também tem o direito de não esquecer quem esteve ao lado da Zona Franca quando ela foi atacada — e quem estava do outro lado.

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