Duas décadas após o parricídio que chocou o Brasil, Suzane von Richthofen, hoje com 42 anos e em regime aberto, decidiu quebrar o silêncio. Em um documentário inédito da Netflix apresentado recentemente em uma pré-estreia restrita e ainda sem data oficial de lançamento, a condenada reconstrói a própria história, oferecendo uma versão onde a tragédia aparece como o desfecho de uma estrutura familiar falida.
No longa-metragem, intitulado provisoriamente como Suzane vai falar, o relato começa pela infância. Suzane descreve a mansão da rua Campo de Marte não como um lar, mas como um ambiente de privação emocional. Ela relata uma rotina focada apenas em desempenho acadêmico, sem demonstrações de carinho.
“Meu pai era zero afeto”, afirma, descrevendo a relação com Manfred e Marísia como um “abismo”.
Um dos pontos centrais de sua narrativa é a alegação de ter presenciado o pai enforcando a mãe contra a parede durante a infância, reforçando a imagem de um ambiente doméstico degradado. Segundo ela, o isolamento a levou a criar um mundo paralelo com o irmão mais novo, Andreas. “Fomos ficando invisíveis dentro de casa”, pontua.
Para Suzane, o encontro com Daniel Cravinhos preencheu o “vácuo” deixado pelos pais. A narrativa sugere que a relação funcionou como um catalisador para a rebeldia. Ela descreve uma vida dupla fingindo ir ao karatê para viajar com Daniel e recorda com certa nostalgia o mês em que os pais viajaram para a Europa, período que definiu como de “liberdade total”, regado a “sexo, drogas e rock ’n’ roll”.
Sobre o planejamento do crime, Suzane diz que o trio não falava sobre matar Manfred e Marísia, mas que seria bom que eles não existissem.
“Nós não falávamos em matar meus pais. A gente dizia que seria muito bom se eles não existissem.”
Embora admita a culpa final (“Eu os levei para dentro da minha casa”), ela tenta se distanciar da execução material e da confecção das armas, afirmando ter ficado no andar de baixo com as mãos nos ouvidos para não ouvir os golpes de pauladas.
O documentário apresenta poucos momentos de contestação, mas o mais forte vem da delegada Cíntia Tucunduva. Ela relata que, dias após o crime, a polícia encontrou Suzane em uma espécie de festa na casa, de biquíni e bebendo cerveja, agindo como se apresentasse um museu. Suzane nega veementemente: “Não tinha condição. A casa estava com cheiro de sangue”.
O filme exibe cenas domésticas com seu atual marido, o médico Felipe Zecchini Muniz (que a conheceu via Instagram), as enteadas e seu filho pequeno. Suzane tenta convencer o espectador de que a jovem de 2002 não existe mais.
“A sensação que eu tenho é que aquela Suzane morreu junto com os meus pais”, declara.