O Carnaval brasileiro voltou a extrapolar a avenida e desembocar nas redes sociais, no Congresso e até em pedidos de investigação. Desta vez, o gatilho foi uma ala de escola de samba que representou a chamada “família tradicional brasileira” dentro de latas de conserva, metáfora que rapidamente se transformou em disputa ideológica nacional.
A cena surgiu no desfile da Acadêmicos de Niterói, no Rio de Janeiro. Na narrativa proposta pelo enredo, os figurinos ironizavam valores tratados como imutáveis por setores conservadores: costumes, papéis de gênero e modelos familiares apresentados como eternos. A imagem da lata simbolizava exatamente isso: algo fechado, preservado, sem mudança ao longo do tempo.
No universo político da internet, o termo já existia. “Conserva” é uma gíria usada há anos para se referir a posições consideradas resistentes a transformações sociais. O Carnaval apenas transformou a expressão digital em alegoria visual.
Do samba ao processo
A reação foi imediata. Parlamentares da oposição acusaram o desfile de atacar cristãos e evangélicos e encaminharam representação à Procuradoria-Geral da República por suposta discriminação religiosa. O argumento central é que a ala teria ridicularizado fiéis ao associar religião e conservadorismo político.
Por outro lado, carnavalescos e pesquisadores lembram que a sátira social é parte fundadora do Carnaval brasileiro desde marchinhas do século XIX até desfiles modernos que criticaram ditadura, racismo, corrupção, elites econômicas e governos de diferentes correntes ideológicas.
Ou seja: a controvérsia não nasceu apenas do conteúdo, mas do ambiente polarizado em que ele foi interpretado.
O desfile da acadêmicos de Niterói foi tipo um fan service para quem é de esquerda. Nesse trecho, eles:
— Mariana Oliveira (@marioliveirain) February 16, 2026
Criticara a “família tradicional” e os neoconservadores em conserva;
Zuaram os patriotas da América;
E ainda colocaram o trompetista no desfile, ele que estava na marcha do… pic.twitter.com/VrkSu4ouE0
A resposta: transformar crítica em identidade
Nas redes, grupos conservadores reagiram com uma estratégia típica da cultura digital contemporânea: apropriar-se do rótulo.
Imagens criadas por inteligência artificial começaram a circular mostrando famílias orgulhosamente dentro de latas, acompanhadas de frases como “somos conserva mesmo”. O que era ironia virou símbolo afirmativo, uma tentativa de inverter o sentido da crítica.
A disputa passou então a existir em dois níveis:
- na avenida: alegoria e sátira artística
- na internet: identidade política e mobilização
A controvérsia mostra como o Brasil contemporâneo disputa narrativas até mesmo sobre o significado do humor, da tradição e da mudança social. Era crítica à hipocrisia, mas virou revolta para eleitores da direita.
Conservadores:
— Jurunense (@o_jurunense) February 17, 2026
1. Na frente dos eleitores.
2. Na vida real. pic.twitter.com/NoHoV8mJez