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Entenda a polêmica da 'família em conserva' no Carnaval e o que não te explicaram

Eleitores e políticos de direita não entenderam que a cena era uma crítica à hipocrisia e passaram a atacar a esquerda e o Carnaval

Os figurinos ironizavam valores tratados como imutáveis e a hipocrisia de quem mostra uma coisa e faz outras às escondidas - Foto: Reprodução

O Carnaval brasileiro voltou a extrapolar a avenida e desembocar nas redes sociais, no Congresso e até em pedidos de investigação. Desta vez, o gatilho foi uma ala de escola de samba que representou a chamada “família tradicional brasileira” dentro de latas de conserva, metáfora que rapidamente se transformou em disputa ideológica nacional.

A cena surgiu no desfile da Acadêmicos de Niterói, no Rio de Janeiro. Na narrativa proposta pelo enredo, os figurinos ironizavam valores tratados como imutáveis por setores conservadores: costumes, papéis de gênero e modelos familiares apresentados como eternos. A imagem da lata simbolizava exatamente isso: algo fechado, preservado, sem mudança ao longo do tempo.

No universo político da internet, o termo já existia. “Conserva” é uma gíria usada há anos para se referir a posições consideradas resistentes a transformações sociais. O Carnaval apenas transformou a expressão digital em alegoria visual.

Do samba ao processo

A reação foi imediata. Parlamentares da oposição acusaram o desfile de atacar cristãos e evangélicos e encaminharam representação à Procuradoria-Geral da República por suposta discriminação religiosa. O argumento central é que a ala teria ridicularizado fiéis ao associar religião e conservadorismo político.

Por outro lado, carnavalescos e pesquisadores lembram que a sátira social é parte fundadora do Carnaval brasileiro desde marchinhas do século XIX até desfiles modernos que criticaram ditadura, racismo, corrupção, elites econômicas e governos de diferentes correntes ideológicas.

Ou seja: a controvérsia não nasceu apenas do conteúdo, mas do ambiente polarizado em que ele foi interpretado.

Vídeo da fantasia

A resposta: transformar crítica em identidade

Nas redes, grupos conservadores reagiram com uma estratégia típica da cultura digital contemporânea: apropriar-se do rótulo.

Imagens criadas por inteligência artificial começaram a circular mostrando famílias orgulhosamente dentro de latas, acompanhadas de frases como “somos conserva mesmo”. O que era ironia virou símbolo afirmativo, uma tentativa de inverter o sentido da crítica.

A disputa passou então a existir em dois níveis:

  • na avenida: alegoria e sátira artística
  • na internet: identidade política e mobilização

A controvérsia mostra como o Brasil contemporâneo disputa narrativas até mesmo sobre o significado do humor, da tradição e da mudança social. Era crítica à hipocrisia, mas virou revolta para eleitores da direita.

A hipocrisia exposta em postagem no X
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