A estiagem já provoca impactos em 29 das 154 aldeias atendidas pelo Distrito Sanitário Especial Indígena Parintins (DSEI PIN). O número corresponde a 18,8% das aldeias monitoradas e representa uma população estimada de 3.150 indígenas afetados, o equivalente a 17,6% da população aldeada do distrito.
Os dados fazem parte do monitoramento semanal realizado pelas equipes do DSEI Parintins e foram divulgados em boletim epidemiológico publicado em 17 de setembro. O distrito atende uma população estimada de 17.890 indígenas, distribuídos em 154 aldeias, 12 polos-base e nove municípios dos estados do Amazonas e do Pará.
Entre as localidades afetadas, 20 aldeias apresentam comprometimento parcial do acesso. Nesses casos, a navegação ainda é possível, mas somente por meio de embarcações de pequeno porte, como rabetas e barcos equipados com motores de 15 HP.
Outras oito aldeias enfrentam uma situação considerada severamente comprometida. A redução do nível dos rios dificulta ou impede a entrada das embarcações normalmente utilizadas pelas equipes de saúde. Diante desse cenário, o DSEI PIN avalia a necessidade de apoio aéreo para garantir o deslocamento dos profissionais e a continuidade da assistência às comunidades.
A aldeia Lírio do Vale, pertencente ao Polo-Base Vila Nova II, em Maués (AM), encontra-se isolada, sem condições regulares de acesso para a prestação da assistência diretamente em seu território. Atualmente, os moradores precisam percorrer cerca de 1h30 de caminhada até a aldeia Terra Nova, onde estão sendo atendidos pelas equipes de saúde.
Paralelamente, o DSEI PIN mantém diálogo com o Agente Indígena de Saúde (AIS) da aldeia para viabilizar a limpeza de uma área que possa ser utilizada como ponto de pouso para aeronaves, possibilitando o acesso à localidade e a manutenção da assistência.
Os impactos foram identificados nos municípios de Maués (AM), Aveiro (PA) e Barreirinha (AM).
Monitoramento começa antes do agravamento da estiagem
Segundo Tatiana Rodrigues, enfermeira do Núcleo 1 de Monitoramento de Indicadores e Situações de Saúde do DSEI Parintins, o acompanhamento das condições dos rios é realizado pelas equipes que atuam diretamente nas aldeias.
Desde abril, os profissionais passaram a registrar semanalmente informações sobre o nível dos rios, as condições de navegabilidade e as possibilidades de acesso às comunidades. Esse acompanhamento é integrado ao formulário utilizado para monitorar doenças, agravos e outras situações de saúde no território.
“Quando a gente tem uma aldeia impactada com o nível do rio que não permite chegar mais uma lancha maior, eles já começam a nos informar, e vamos traçando as estratégias para acessar aquela aldeia de outras formas”, explica Tatiana.
De acordo com a enfermeira, o monitoramento permite identificar antecipadamente as localidades que necessitam de atenção diferenciada e direcionar as ações de saúde conforme a evolução da estiagem, contribuindo para o planejamento logístico e a continuidade da assistência às populações indígenas.
Baixa dos rios também afeta alimentação
Além de dificultar o deslocamento das equipes de saúde, a estiagem interfere diretamente na rotina e na segurança alimentar das comunidades indígenas.
Diante desse cenário, o DSEI PIN realiza articulações com órgãos públicos para buscar alternativas de apoio às comunidades mais afetadas. A estratégia envolve contatos com prefeituras da região do Baixo Amazonas, Defesa Civil, Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Ministério da Saúde e Secretaria de Saúde Indígena (SESAI).
As articulações têm como objetivo viabilizar o acesso a insumos alimentares e minimizar os impactos da estiagem sobre as comunidades, especialmente enquanto as condições de transporte permanecem comprometidas.
Estratégias são adotadas para evitar a desassistência
A redução do nível dos rios exige que o DSEI PIN adapte a logística de atendimento conforme as condições encontradas em cada comunidade. Em situações de maior gravidade, o apoio aéreo é considerado uma alternativa para viabilizar o deslocamento das equipes de saúde e assegurar a continuidade da assistência.
Por meio do monitoramento semanal das condições dos rios, da situação de saúde da população e das necessidades específicas de cada comunidade, o DSEI Parintins busca antecipar cenários de risco, adaptar as estratégias de atendimento e direcionar esforços para as localidades mais afetadas pela estiagem.
A atuação integrada das equipes e a articulação com instituições parceiras são fundamentais para enfrentar os desafios impostos pelo período de seca, minimizar os impactos sobre os povos indígenas e reduzir o risco de desassistência nas aldeias atendidas pelo distrito.