O presidente Lula (PT) usou o tradicional pronunciamento presidencial do 7 de Setembro para reforçar temas caros para sua gestão neste terceiro mandato e utilizados em sua campanha de reeleição, como é o caso da defesa da soberania nacional e a exploração de minerais estratégicos.
Na fala que foi ao ar em rede nacional de rádio e TV na noite deste domingo (6), Lula mandou recados indiretos ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao repudiar a interferência estrangeira na exploração mineral, na extração do petróleo na Foz do Amazonas e no comércio internacional -os EUA trabalham para frear o avanço da China na América Latina.
"Não podemos baixar a cabeça diante de potências estrangeiras que querem transformar o Brasil novamente em colônia. Não somos colônia e não seremos colônia de ninguém", disse Lula.
Os EUA têm interesse na extração de terras raras no Brasil para uso bélico, e Trump já abordou temas de política interna brasileira, quando rejeitou a condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado e acenou à campanha de Flávio Bolsonaro (PL). Ele tentou enviar oficiais para fiscalizar o processo eleitoral do Brasil.
Lula tem tratado dos minerais em sua campanha. No programa que levou ao ar na última semana, colocou rostos de pessoas em símbolos da tabela periódica para apresentar e explicar o conceito de terras raras ao público, tema ainda pouco conhecido pela população.
A temática passou a ser mais uma de suas bandeiras após o aumento do interesse nacional e internacional nesses minerais. Além da cobiça americana, a exploração dos minerais pautou a agenda política deste ano quando Ronaldo Caiado (PSD), rival de Lula na disputa presidencial, sugeriu uma parceria com os EUA para exploração em seu estado, Goiás.
Em seu discurso, Lula relacionou o tópico das terras raras com conquistas de sua gestão dentro do Congresso Nacional, ao citar a aprovação do Marco Legal dos Minerais Críticos, na última semana.
Sem mencionar especificamente o fim da jornada de trabalho 6x1-em que se trabalha 6 dias na semana frente a um descanso-, Lula abordou a temática da qualidade de vida e do tempo para si, discurso utilizado por ele e por sua equipe na defesa da pauta.
"Um país soberano é aquele capaz de criar as oportunidades que seu povo precisa para conquistar a própria independência. A independência financeira, a independência de poder estudar, pensar livremente, escolher a melhor profissão e o melhor emprego. Ter mais tempo para si mesmo e para sua família", disse.
A PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que prevê a mudança da jornada foi aprovada na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado na última semana. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), disse que o tema deverá ser levado a plenário após o primeiro turno, como mostrou a Folha.
Lula articulou para que as duas pautas avançassem junto a outras caras para seu governo antes das eleições, em reunião com Alcolumbre (União-AP) e com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
O andamento de temas com forte apelo popular é uma moeda política importante tanto para o presidente quanto para o Congresso com a proximidade das eleições para cargos de nível federal.
Para manter o tradicional pronunciamento feito pelos presidentes da República no Dia da Independência, Lula precisou receber autorização do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). A corte restringe o uso de recursos e equipamentos do governo durante a campanha para evitar uso da máquina pública em benefício de candidatos.
Assim como o pronunciamento, o desfile desta segunda (7) sofrerá com restrições devido ao ano eleitoral. Nesta edição, não haverá distribuição de itens temáticos da Independência como bonés.
O pronunciamento foi gravado antes do agravamento da crise no Supremo Tribunal Federal, rachado pela disputa entre Alexandre de Moraes e André Mendonça, este último relator dos casos Master e INSS na corte. Moraes teve diálogos com Vorcaro revelados por ordem de Mendonça, o que acionou um contra-ataque do outro ministro. Lula não abordou o tema no pronunciamento do 7 de setembro.
Como mostrou a Folha, o governo usará como mote no desfile de 7 de Setembro deste ano a frase "A Força que Une o Brasil", na linha do que vem sendo destacado por Lula. As peças e materiais com a frase foram colocados na Esplanada dos Ministérios, que está sendo preparada para o evento, em Brasília.