Mesmo localizada na região amazônica, onde está a maior bacia hidrográfica do mundo, Manaus enfrenta riscos para a segurança hídrica nos próximos anos. Os impactos das mudanças climáticas e o uso indiscriminado de poços subterrâneos podem levar a capital do Amazonas a atingir níveis críticos de abastecimento até 2040.
É o que indica o estudo inédito “O desafio da segurança hídrica na região de Manaus e políticas de sustentabilidade”, produzido pelo Instituto Trata Brasil, em parceria com a GO Associados. A pesquisa foi apresentada na manhã desta quinta-feira (03), durante evento na Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo.
Entre os principais pontos destacados pelo estudo está a necessidade de diversificar a matriz hídrica para reduzir os impactos da estiagem e do alto consumo de águas subterrâneas no abastecimento da capital do Amazonas. A estimativa é de que haja mais de 27 mil poços em operação na cidade, enquanto apenas 5 mil estão registrados pelos órgãos de controle.
De acordo com o estudo, a adesão à rede pública de abastecimento é uma alternativa para reduzir a dependência dos poços. Nesse contexto, a indústria tem um papel fundamental, uma vez que parte do setor ainda utiliza água de captação subterrânea para operar.
A pesquisa aponta que a adesão das indústrias ao sistema público de abastecimento tende a reduzir os custos fixos do sistema, viabilizando o subsídio cruzado que garante tarifas mais baixas às categorias residencial, social e vulnerável, com benefícios para a população em geral.
Para Luana Pretto, presidente executiva do Instituto Trata Brasil, o desafio da água está diretamente ligado ao planejamento. “Segurança hídrica se constrói com planejamento e mitigação de risco, e o caso de Manaus mostra isso com clareza. A cidade depende fortemente do Rio Negro, mas também recorre a poços que muitas vezes operam sem outorga e sem controle adequado. Investir hoje em reúso, uso racional e controlado dos poços, monitoramento e proteção de mananciais reduz riscos para a população e para as empresas. É assim que o país avança rumo à universalização do saneamento, com responsabilidade e visão integrada”, destaca.
O diretor-presidente da Águas de Manaus, concessionária que atua na capital, Pedro Freitas, entende que a região vive um momento decisivo para o evitar os riscos de desabastecimentos a médio prazo. Ele participou do debate sobre o estudo em São Paulo. “Estamos empenhados em mobilizar os mais diversos setores nesse tema porque sabemos que o saneamento é um desafio coletivo. Isso passa por ampliar a conscientização sobre a diversificação da matriz hídrica de Manaus, avançar no combate às perdas e preservar as nossas fontes naturais de água”, afirma.

Para ele, o papel da indústria é fundamental para ampliar a adesão ao serviço público de abastecimento e garantir a sustentabilidade do sistema. “Os setores públicos e privados, assim como a população, podem contribuir para ampliar o acesso à água com qualidade e segurança ao aderirem ao sistema. Este estudo demonstra, em especial, como a adesão do setor industrial à rede de abastecimento pode gerar uma cadeia de benefícios, incentivando outros segmentos a também se conectarem à rede e promovendo um uso mais sustentável dos recursos hídricos”, defende.