Nesse admirável mundo novo, onde nossas vidas cabem todas dentro de um telefone celular, o jornal impresso está fadado ao desaparecimento. Ou, para ser menos catastrófico, os grandes jornais estão passando por um processo de metamorfose que ameaça sua própria existência. Esta é a realidade. Diariamente, a olhos vistos, vão diminuindo os leitores, e a publicidade que sustentava o alto custo dos jornalões está migrando para a internet e outros meios com potencial para atingir um público muito maior. O mesmo vem acontecendo com a notícia: por que esperar a informação no jornal de amanhã se você pode ler a notícia agora, e de graça, nas plataformas digitais?
De acordo com o IVC Brasil (Instituto Verificador de Comunicação), em 2010, circulavam no país 4.375.803 exemplares diários. Naquele período, o Brasil possuía cerca de 800 a 1.000 jornais diários e não diários em circulação. No cenário atual, o número de jornais encolheu “drasticamente”, variando entre 300 e 400 títulos. E, é claro, isso refletiu na tiragem diária. Levantamento do Poder360 aponta que hoje a tiragem diária somada das principais publicações atinge pouco mais de 380.000 exemplares impressos por dia.
Diante desse quadro melancólico, também desapareceram das ruas os jornaleiros, conhecidos também como gazeteiros, que animavam as ruas gritando as principais manchetes dos jornais: “Leia agora. O homem pisa na Lua!”; “Olha aí: nesta edição tem pôster do seu time campeão!”. Hoje, quase não vemos mais essa figura pelas ruas do país. Em Manaus, como em outras grandes capitais, importantes veículos encerraram suas atividades ou migraram para a internet: Amazonas em Tempo, Diário do Amazonas, Estado do Amazonas, Correio Amazonense, A Notícia e Jornal do Norte são alguns que deixaram de circular.
E os gazeteiros, para onde foram? Sem jornal para vender e sem leitor para comprar, eles tomaram caminhos diferentes em busca de outros meios de sobrevivência. Ops! Todos, não. Um deles resiste aos tempos difíceis e continua, diariamente, vendendo 30 edições do único jornal que ainda circula em pontos cada vez mais raros: A Crítica. E pensar que um dia, aos domingos, ele já vendeu 60 mil jornais diários.

Herói da resistência
O nome desse “herói da resistência” é Eriton Cordeiro da Silva, e sua longa jornada na luta pela sobrevivência chega a ser assustadora. Ele começou a vender jornais na Avenida das Flores, conjunto Tiradentes, Aleixo, zona leste de Manaus, ainda na infância, aos 9 anos de idade — ainda não existia o ECA. Hoje tem 59. Logo, são 50 anos enfrentando sol e chuva para levar a notícia ainda com cheirinho de tinta de jornal.
— O volume de jornal era tão grande que eu não conseguia carregar. Aí a kombi do jornal ia deixar nos pontos. Naquele tempo, eu vendia, às vezes, mais de 600 jornais aos domingos. Eram edições de A Crítica, Jornal do Comércio, Amazonas em Tempo, Diário do Amazonas, A Notícia… dava para ganhar uma boa grana — lembra o jornaleiro, que hoje enfrenta dificuldades com o pouco que fatura. Um jornal custa R$ 2,00 e ele vende, no máximo, 30 exemplares. Isso nos dias bons. Às vezes, não chega a vender 20.
— Os moradores que hoje ainda compram o jornal são os mesmos do passado. Alguns me pagam um valor maior só para me ajudar, pois me conhecem há muitos anos e sabem da minha luta — diz o jornaleiro.
“O jornal impresso não acabou e nunca vai acabar”
Mesmo sabendo que seu ofício está perto do fim, ele mantém o otimismo e acredita que ainda é possível sobreviver da venda de jornal.
— Você acha que dá para viver exclusivamente da venda de jornais? — pergunta o repórter.
— Antes dava. Agora, não é mais possível. Por mês, vendo, em média, 350 jornais. Esse faturamento é muito pouco, mas dá para a gente se manter. Com dificuldade, mas dá — diz ele, de forma resiliente.
— E por que você não procura outro meio de sobrevivência?
— Não posso exercer outra atividade porque não tenho tempo para isso. Cuido de minha mãe, de 90 anos, e somos só eu e ela. Aqui eu encerro cedo e volto para casa correndo para lhe dar o café da manhã e cuidar dela. Em outro tipo de atividade, eu não poderia fazer isso. Não teria ninguém para cuidar da velhinha — explica Eriton.
O jornaleiro é incisivo quando eu pergunto se ele acredita que o jornal impresso acabou.
— Não acabou e nunca vai acabar — responde ele.

— A internet impactou bastante, mas tem leitor que não abre mão de folhear o jornal, ler, ver as fotos, discutir os assuntos impactantes, sentir o cheiro da tinta saindo do papel de manhãzinha, junto com o cheiro do café quente. É uma tradição — comenta.
A luta pela sobrevivência do jornal impresso é desigual. O volume de notícias nas redes sociais é gigantesco, e o custo para colocar um jornal na rua é muito alto. Embora a internet seja poderosa, ainda tem leitor das antigas que acredita mais no impresso. Quem de nós, por exemplo, nunca viu esta cena: o leitor passa a vista na tela do celular, olha para quem está do lado e pergunta:
— Será que isso é verdade?
Por isso, fica cada vez mais difícil diferenciar uma informação verdadeira de uma notícia falsa. Eriton tem apenas o ensino médio, mas se sente com experiência suficiente — acumulada nos longos anos em que vem lidando com notícias — para acreditar que o jornal impresso passa muito mais credibilidade.
— Sim, algumas pessoas confiam mais no jornal impresso, pois a internet pode conter muitas informações falsas. Isto é fato! — palavra de quem conhece o produto que vende.