Como foi a segunda semana de Roberto Cidade no Governo do Amazonas? Se na primeira o objetivo era acalmar o ambiente e evitar qualquer sensação de ruptura, na segunda o governador interino começou a desenhar uma rotina mais visível de gestão, com agendas públicas voltadas para cidadania, saúde e habitação. O movimento foi claro: sair um pouco da imagem de mera transição institucional e aparecer mais como chefe de governo em exercício.
A semana começou com uma agenda social de forte apelo simbólico. Na abertura do “Registre-se em Manaus”, em 13 de abril, Roberto Cidade destacou a ampliação do acesso à cidadania e à documentação básica, com foco na população vulnerável da capital e do interior. A ação, segundo o governo, previa mais de 15 mil atendimentos ao longo da semana e reuniu serviços ligados à emissão de documentos e inclusão social. Foi uma escolha de agenda que ajuda a reforçar uma imagem de presença do Estado onde ele costuma ser mais cobrado: na porta de entrada dos direitos básicos.
No mesmo dia, Cidade também foi à zona Oeste de Manaus vistoriar as obras do Residencial Compensa, empreendimento do programa Amazonas Meu Lar em parceria com o Minha Casa, Minha Vida, com previsão de 256 unidades habitacionais. O recado político e administrativo foi o da continuidade de projetos estruturantes, especialmente num setor sensível como habitação, onde obra em andamento rende mais do que promessa nova.
Na saúde, a segunda semana teve peso ainda maior. Em 14 de abril, ele vistoriou a Policlínica e o Hospital-Dia do Complexo Hospitalar Sul, estrutura que, segundo o governo, estava com 95% das obras concluídas e previsão de entrega em até 30 dias. A nova unidade deve ampliar atendimentos e reorganizar o fluxo de pacientes entre o Hospital 28 de Agosto e o Instituto da Mulher Dona Lindu, com serviços voltados inclusive ao pós-operatório e a procedimentos de baixa e média complexidade.

No dia seguinte, 15 de abril, Cidade voltou a apostar na saúde como vitrine de gestão ao vistoriar as obras da FCecon. A agenda teve um peso político maior do que parece à primeira vista. A FCecon é uma unidade de forte carga simbólica no Amazonas, e a visita permitiu ao governador interino associar sua imagem a modernização, humanização do atendimento e reorganização de serviços. Segundo a Agência Amazonas, a obra inclui reforma do ambulatório, ampliação da recepção, melhorias em setores estratégicos e adequações na área de quimioterapia.
Se a primeira semana foi marcada pela tentativa de provar que o governo não entraria em turbulência, a segunda mostrou um esforço para ocupar a agenda com pautas que dialogam diretamente com o cotidiano da população. Não houve, pelo menos nas coberturas públicas mais visíveis, uma guinada administrativa ou uma medida de grande impacto político. O que houve foi uma sequência de agendas cuidadosamente alinhadas à ideia de continuidade, presença institucional e entrega de serviços. Em termos de comunicação, Cidade trocou a defensiva da estreia por uma vitrine mais concreta de gestão.
Política
Isso não significa, porém, que a política tenha saído de cena. Pelo contrário. A interinidade continua moldando tudo. A Constituição do Amazonas prevê eleição indireta pela Assembleia em caso de vacância simultânea de governador e vice nos dois últimos anos do mandato, e a própria cobertura local registra que Cidade segue como um dos nomes do jogo, ao mesmo tempo em que mantém o secretariado para sustentar a estabilidade administrativa. Ou seja, cada ato dele continua sendo lido sob duas lentes: a da gestão e a da eleição.

Em virtude da política, apresentou Serafim Corrêa como candidato a vice na eleição indireta. Disse que o ex-prefeito é um homem experiente que vai ajudá-lo a governar até o final do ano. Evitou em falar em reeleição quando questionado sobre o assunto, focando no momento atual.
Há ainda um detalhe que ajuda a entender o espírito desses dias. Na semana anterior, Cidade formalizou a opção por receber a remuneração do mandato parlamentar, e não o subsídio de governador, enquanto estiver no Executivo. O gesto teve valor político e simbólico, porque se somou à decisão já anunciada de afastar potenciais focos de desgaste logo no início da passagem pelo cargo.
No fim das contas, a segunda semana de Roberto Cidade foi menos tensa que a primeira, mas talvez tenha sido mais reveladora. Ela mostrou que o governador interino entendeu a necessidade de sair do noticiário da sucessão e entrar no noticiário da administração. Fez isso com agendas de cidadania, habitação e saúde, áreas que ajudam a construir imagem de governo sem exigir, em tão pouco tempo, uma marca própria mais agressiva. A segunda semana serviu para mostrar presença. A próxima precisará mostrar força.