Parintins – 'Curuatás'. Este é o nome da dupla de compositores do boi-bumbá Garantido que vem 'balanceando' o coração dos nativos da ilha de Parintins e de milhares de visitantes nesta temporada bovina. Apesar da pouca idade — ambos têm pouco mais de 30 anos — Bruno Bulcão e Jaércio Curuatá já podem ser considerados uma dupla histórica do boi vermelho e branco. São autores de sucessos como Meu Nome é Povão, Perreché da Puraca, Perrechelogia e Perrecheiro, toadas que conquistaram a preferência da galera encarnada.
As três toadas dominam as apresentações, as ruas e as plataformas de streaming nas últimas três temporada do Festival de Parintins.
Nesta quinta-feira (25), o portal MarioAdolfo.com foi ao encontro de Bruno Bulcão no Mercado Lindolfo Monteverde, o tradicional 'Mercado da Baixa', considerado o coração do Garantido. Jaércio, músico profissional, não pôde participar da entrevista porque estava se apresentando em um evento.
Durante a conversa, Bruno contou que herdou do avô o amor pela música e, da mãe, professora, a paixão pela matemática. Repetindo a máxima de que “amar é quase uma dor”, o poeta afirma que suas toadas carregam muito do amor pelo seu povo, da paixão pelo Garantido, mas também da dor e do sofrimento que fazem parte dessa entrega.
A dor dele é grande. O pai de Bruno foi caçauraé e acabou falecendo quando a alegoria que ele empurrava em direção ao bumbódromo tocou num fio de alta tensão. A morte da esposa, Teresa Cristina, também o toca bastante - chegou a chorar quando lembrou e ambos.
Vídeo publicado pelo Instagram da TV Norte
CONFIRA A ENTREVISTA
Mario Adolfo – Bruno, você é um perreché (pé rachado, para os leigos) raiz, nascido e criado na Baixa?
Bruno Bulcão – Sim. Nasci e fui criado aqui, no bairro Rio Branco, reduto da Baixa do São José, vizinho à antiga prensa de juta.
MA – Como você descobriu sua vocação para a música?
Bruno – Fui criado pelos meus avós. Meu avô era compositor do Boi Garantido, e suas histórias e obras ainda são muito lembradas e respeitadas na nossa cultura. Cresci acompanhando-o nos ensaios e corais, o que despertou em mim um desejo profundo de contribuir artisticamente com o meu boi. Além disso, sou filho da professora de Matemática Carmita. Tenho a satisfação de dizer que segui os passos de ambos: tornei-me professor, como ela, e poeta, como meu avô.
MA – Você é formado em Matemática?
Bruno – Sim. Sou professor de Matemática, formado aqui mesmo em Parintins.
MA – Qual foi a sua primeira composição?
Bruno – Minha primeira obra foi composta em parceria com meu amigo Jaércio Curuatá. Nossa parceria é de longa data, iniciada ainda nos grupos escolares, e compor para o Garantido sempre foi um sonho compartilhado. Nossa primeira música gravada foi Meu Nome é Povão, em 2019.
MA – É possível sobreviver economicamente apenas como compositor de boi?
Bruno – É variável. Há meses em que o retorno é significativo, ajudando a cobrir despesas, e outros em que o valor é apenas simbólico. Já recebi até R$ 12 por direitos autorais (risos).
Perreché da Puraca é sucesso desde 2024
MA – Como funciona o processo criativo das suas composições?
Bruno – Eu e Jaércio trabalhamos de forma colaborativa. Como ele é músico profissional, nossos conhecimentos se complementam. Um traz a ideia e o outro a aprimora, num processo constante de troca.
BMA – Falando sobre a toada Perreché da Puraca, de onde surgiu a inspiração para um tema tão ligado à cultura parintinense?
Bruno – Ela nasceu da necessidade de afirmar nossa identidade. Queríamos expressar, por meio das nossas expressões locais, o sentimento de pertencimento e o amor incondicional pelo Garantido. Quando falo do 'balanceado', a interpretação vai além do banzeiro do rio. É uma metáfora para aquele sentimento avassalador que sentimos por algo que amamos, como o sorriso de uma pessoa querida ao dobrar a esquina. É um estado de entrega total.
BMA – E como nasceram Perrechelogia e Perrecheiro?
Bruno – Perrechelogia surgiu da tentativa de entender o que leva o torcedor — o perrecheiro — a dedicar tanto tempo, esforço e recursos ao boi, mesmo diante das dificuldades do cotidiano. Se não for por amor, não há explicação racional. A música propõe que esse sentimento seja uma “ciência” própria, algo profundo e inexplicável.
Já em Perrecheiro, focamos no compromisso. Assim como em tantas profissões, o sufixo indica uma ocupação. Ser perrecheiro é um ofício, um compromisso de vida. A toada reforça essa entrega ao dizer: 'Botei a mão no fogo pelo meu boi'. É a afirmação de que, apesar de qualquer adversidade, minha lealdade ao Garantido permanece inabalável.
"Ser perrecheiro é a minha profissão de fé"
