As associações dos bois-bumbás Caprichoso e Garantido publicaram notas de repúdio nas redes sociais contra ataques virtuais direcionados à cunhã-poranga Marciele Albuquerque, alvo de comentários ofensivos após entrar no BBB 26, depois de participar da Casa de Vidro do Norte. As manifestações denunciam práticas de racismo, misoginia, injúria racial e discurso de ódio travestidos de rivalidade entre torcidas.
Natural de Juruti, no Pará, Marciele Albuquerque tem 32 anos, é dançarina e influenciadora digital. Ela vive em Manaus há 16 anos, tem ascendência indígena e ocupa o posto de cunhã-poranga do Boi Caprichoso no Festival Folclórico de Parintins. A participação no BBB 26 ampliou sua visibilidade nacional, ao mesmo tempo em que desencadeou os ataques virtuais que motivaram as manifestações de repúdio das duas agremiações.
Em nota oficial, a Associação Cultural Boi-Bumbá Caprichoso afirmou que os ataques ultrapassam qualquer limite aceitável e não representam a tradição do Festival de Parintins, cuja rivalidade histórica, segundo a entidade, sempre esteve restrita à arena, à estética e à criação artística. A associação destacou que a internet não pode ser tratada como “terra sem lei” e reforçou que discursos de ódio não devem ser normalizados.
A entidade também ressaltou o papel histórico de Marciele no festival. Ao assumir o posto de cunhã-poranga, ela deixa de ser apenas uma representação artística e passa a simbolizar representatividade, especialmente por ser uma mulher indígena do povo Munduruku. A nota lembra ainda que Marciele atua como defensora das causas dos povos da Amazônia, com participação em eventos como a Marcha das Mulheres Indígenas, além de espaços internacionais, incluindo a ONU e conferências climáticas.
O Boi Garantido também se posicionou publicamente, repudiando ataques de misoginia e racismo recreativo direcionados a Marciele Albuquerque, à cunhã-poranga Isabelle Nogueira e à rainha do folclore Lívia Christina. A associação afirmou que tais práticas não podem ser tratadas como brincadeira nem justificadas pela rivalidade entre os bois.
Segundo o Garantido, a violência simbólica e os ataques virtuais não representam a história do boi nem os valores defendidos pela galera vermelha e branca. A entidade reforçou solidariedade às mulheres atacadas e destacou a importância de valorizar as mulheres do Norte que fortalecem o Festival de Parintins e levam a cultura popular amazônica a novos espaços de visibilidade nacional.
Já em outra postagem, o Boi Garantido destacou que a rivalidade entre os bois fazem parte da tradição do Festival de Parintins, sempre pautada por regras claras que impedem agressões físicas e morais. Na publicação, o boi vermelho e branco reforçou que a rivalidade jamais deve ser utilizada como justificativa para qualquer tipo de violência, ofensa ou discurso de ódio, seja no ambiente presencial ou nas redes sociais.
A associação também alertou que o uso de espaços de mídia, oficiais ou não, para manifestações agressivas ou “alfinetadas” contribui para o fortalecimento de uma rivalidade considerada perigosa. O Garantido afirmou ainda manter um compromisso inabalável com uma rivalidade baseada na brincadeira e no respeito mútuo, repudiando veementemente qualquer forma de violência.