(Rio de Janeiro) - Domingo, 7 de setembro, 9h. Chove e faz frio no Rio de Janeiro. A Padaria Ipanema, na Avenida Visconde de Pirajá, nº 325 — estabelecimento histórico, inaugurado originalmente em 1911 —, está lotada de turistas por conta do Rock in Rio. Apesar de antiga, a padaria foi toda reformada e modernizada, mas teve o famoso nome preservado.
Em uma das mesas, ao lado de Adriana para o café da manhã, reclamei ao garçom que o pedido — pão francês na manteiga (sem passar na chapa) e um chocolate quente — estava demorando.
— Um pedido tão simples… Por que tanta demora? Das duas, uma: ou está faltando pão ou não tem manteiga?
Súbito, ouvi uma voz irritada atrás de mim:
— Não! Não está faltando pão e muito menos manteiga. Acontece que a internet caiu e os pedidos são feitos pelos garçons pelo celular!
— O senhor pode até ter razão, mas estou esperando há um bom tempo!
— Cara, até as Ferrari quebram! — disse, irritado, e foi embora.
Chateado, comentei com o garçom que nos servia:
— Que cara mais grosso, hein?
— Releve, ele está estressado. É um homem bom. É seo Antônio, o novo dono da padaria.
A ficha caiu.
Em outras viagens ao Rio, fazendo a peregrinação por alguns botecos famosos, já tinha ouvido garçons contando que “o novo dono daqui passa de bicicleta todas as manhãs para ver se está tudo bem”.
Foi assim no Belmonte — hoje um dos mais modernos e frequentados bares e restaurantes do Rio, em plena Avenida Vieira Souto, esquina com a Farme de Amoedo, de frente para a Praia de Ipanema.
Foi assim no velho Amarelinho, na Cinelândia.
“Ele paga até viagem de férias para os funcionários.”
“Ah, ele comprou aquele bar e deu para os garçons administrarem.”
Tinha curiosidade de conhecer o famoso Antônio do Belmonte. Francisco Antônio Rodrigues Pinto, cearense, 58 anos. Só não sabia que seria batendo de frente.
Um empresário que deixou o Ceará aos 16 anos para lavar copos em uma churrascaria no Rio, em 1984. E que, em pouco mais de 30 anos, comprou alguns dos mais famosos bares e restaurantes cariocas: o Boteco Belmonte, uma rede de seis bares, cuja matriz, na Praia do Flamengo, o empresário assumiu em 2001 e transformou em uma rede de sucesso com várias filiais; o Nova Capela, tradicional restaurante localizado na Lapa; o Bar Amarelinho, icônico ponto da Cinelândia fundado em 1921; o Cervantes, famoso restaurante que servia um dos mais conhecidos sanduíches de pernil com abacaxi de Copacabana; o Restaurante Mosteiro, tradicional casa de culinária portuguesa no Centro; o Bar Luiz, que teve a marca arrematada em leilão pelo empresário para garantir sua preservação; o Azumi, tradicional restaurante japonês do Leblon, hoje sob nova direção do grupo; a Padaria Ipanema; e a tradicional Pizzaria Guanabara, no Baixo Leblon, que está sendo reinaugurada.
— Caramba! Esse é o famoso seo Antônio! — exclamei, chamando a atenção do garçom.
— Ele mesmo. E tem uma coisa em comum com o senhor.
— O quê? — perguntei, intrigado.
— Isso aí! — respondeu, apontando para o escudo do Botafogo na capa do meu celular. — Ele é botafoguense roxo.
Enquanto isso, a fila da Padaria Ipanema já se espalhava pela calçada da Visconde de Pirajá, dobrando para o lado direito.
Ao sair, tive outra surpresa: seo Antônio estava servindo champanhe em taças para os clientes que aguardavam, na rua, uma mesa para tomar café.
Ele apertou minha mão e provoquei:
— Só vim aqui me desculpar porque o senhor é botafoguense.
— A gente anda muito nervoso (risos).
— Sua história daria uma grande reportagem — comentei.
— Você é jornalista?
— Sou. Lá em Manaus.
— Ué, então vamos fazer — ele propôs.
— Quando?
— Amanhã de manhã estarei aqui.
Não acreditei muito, mas, no outro dia, por desencargo de consciência, resolvi passar na Padaria Ipanema.
E seo Antônio estava lá.
Ao me ver, abriu um largo sorriso e convidou:
— Vamos fazer aqui mesmo, em pé, no balcão.
Confira a entrevista.

marioadolfo.com — O senhor é do Nordeste, não é? Como é que veio parar no Rio de Janeiro e escrever uma história tão impressionante?
Francisco Antônio Rodrigues Pinto, empresário — Sou de Hidrolândia, Ceará. Rapaz, na época em que eu tinha 16 anos, o sonho de todo cearense era vir para o Rio de Janeiro para sobreviver e mandar um dinheiro para a família.
MA — Lá no Ceará, o senhor trabalhava desde criança, certo? Na época isso era possível, pois não tinha o ECA. Que tipo de trabalho uma criança fazia no sertão nordestino?
Antônio — Eu trabalhava na roça para ajudar minha família. Plantava milho, feijão, brocava roçado (limpar o terreno, cortando o mato rasteiro, os arbustos e as pequenas árvores para preparar a terra antes do plantio), tirava madeira com o jumento, mel de abelha na caatinga, leite das vacas. Enfim, tudo o que o nordestino fazia, que hoje não faz mais.
MA — Quando é que o senhor decidiu vir para o Rio de Janeiro e por quê?
Antônio — Na época em que eu vim, era no mês de maio, o inverno estava acabando. Meu pai roçou uma crua (preparar uma roça crua) para plantar milho de novo. Eu fui limpar o toco do capim, cortei meus dedos com a enxada. Aí não quis mais aquela vida pra mim e precisava fazer alguma coisa pra tirar minha família daquela situação. Na época eu tinha 16 anos.
MA — Então, foi a vida difícil que fez o senhor decidir largar tudo e vir tentar a sorte no Rio? Em que condições o senhor veio, já que não tinha dinheiro sobrando?
Antônio — Falei: “Aqui eu não fico mais. Eu vou embora”. Vendi uma ovelha que o meu tio me deu e, com o dinheiro, comprei a passagem na Viação Itapemirim e saí fora. Vim embora cheio de sonhos.
MA — Que ano era esse que mudou sua vida?
Antônio — Corria o ano de 1984. Eu vim de lá para cá com um tênis, uma camisa e uma calça. Uma muda de roupa dentro de uma bolsa. Não existia mochila, era uma sacola, né? Enfim, é isso. Minha mãe torrou quatro capotes (fritar, dourar ou refogar galinhas-d’angola para fazer o tradicional e famoso prato regional conhecido como arroz de capote), que eu vim comendo dentro do ônibus da Itapemirim. Tomei uns dois ou três guaranás de lá para cá. Lembro que não tomei banho, porque eu nunca tinha tomado banho de chuveiro. Não sabia abrir um chuveiro e tomar banho depois de três dias de viagem.
MA — Chegando ao Rio só com uma sacola de roupa, qual foi o seu primeiro passo na Cidade Maravilhosa?
Antônio — Meu primeiro passo foi morar em um morro em Niterói, chamado Morro do Vital Brasil. Depois fui trabalhar em um botequim em Niterói, em Icaraí (praia mais famosa e principal cartão-postal de Niterói). Ali fiquei um mês, conheci um casal que me trouxe para trabalhar na Churrascaria Copacabana, que funcionava na Avenida Repórter Nestor Moreira, 42, em Botafogo. O local atualmente abriga a Cruzeiro do Sul Churrascaria. Nessa churrascaria, que era famosa, fui lavar pratos, com 16 anos.

MA — Naquela época e naquelas condições, o senhor tinha onde morar?
Antônio — Dei meu jeito. Fui morar em uma vaga em Botafogo. Um espaço apertado, ocupado por mais sete caras dentro de um quarto. Três de um lado e três do outro. Comigo, passaram a ser oito inquilinos.
MA — Tempos difíceis. E, na churrascaria, a vida também não deve ter sido fácil para um adolescente de 16 anos vindo do Nordeste?
Antônio — Naquela época era diferente. Você não tinha hora extra, não tinha relógio de ponto, não tinha domingo do mês. Não tinha hora para entrar nem hora pra sair. Era difícil, mas, enfim, eu aprendi muito.
MA — Na época, o senhor ganhava quanto? Salário mínimo e gorjetas?
Antônio — Eu nem lembro quanto era, mas naquele tempo o salário mínimo era muito melhor. Só depois de oito meses pude comprar a primeira camisa no Largo da Carioca, num camelô. Depois de oito meses que eu estava aqui.
MA — Qual foi o primeiro empreendimento que o senhor comprou?
Antônio — O primeiro empreendimento meu foi um botequim na Cinelândia, o “Carlitos”, em frente ao Teatro Rival. Era um pé-sujo.
“Eu não acumulei riqueza. Eu não sou rico, eu sou trabalhador, meu amigo.”
MA (interrompendo) — Esse bar existe até hoje?
Antônio — Não. Esse prédio foi reformado e virou uma agência da Caixa Econômica. Como o banco não queria que tivesse nenhum estabelecimento no térreo que tivesse gás, cozinha, já que colocaria em risco o arquivo de documentos importantes em caso de incêndio, eles indenizaram todo mundo e todo mundo foi embora. E eu também fui.
MA — E foi acumulando riqueza só com esse botequim? Ou usou o dinheiro da indenização para investir em outros estabelecimentos?
Antônio — Eu não acumulei riqueza. Eu não sou rico, eu sou trabalhador, meu amigo (risos). Você já viu alguém que trabalha enricar?
MA — Quantos estabelecimentos o senhor já tem em seu patrimônio?
Antônio — Tenho 30 aqui no Rio, um em São Paulo e seis em Portugal, no Porto.
MA — Quais são os mais famosos que o senhor adquiriu, manteve o nome e preservou o prédio original?
Antônio — Belmonte, por exemplo. Cervantes, Amarelinho, Capela, Fazer Amor, Padaria Ipanema, Mosteiro. Agora eu estou partindo para reabrir a Pizzaria Guanabara e o Bar Luiz.
MA — A Pizzaria Guanabara é aquela do Baixo Leblon que o Tom Jobim frequentava?
Antônio — Não só ele. A nata da boemia carioca. Cazuza e companhia.

MA — Em meio a tantos estabelecimentos famosos, qual é o que o senhor mais gosta, que tem carinho em cuidar e preservar o nome?
Antônio — O Capela, lá na Lapa. Um lugar fundado em 1903. Um lugar agradável, gostoso de você entrar. E lá tenho o que eu considero o melhor chope do Brasil. É o chope do Capela.
MA — O que tem de tão especial assim?
Antônio — É um chope com uma serpentina antiga de 300 metros quadrados, que ainda é à moda antiga, com o gelo soltado no pau. Então, para mim, o melhor chope do Rio de Janeiro é o do Capela.
MA — Seo Antônio, como empresário ousado e vitorioso, que ensinamento o senhor daria para uma nova geração que quer crescer como o senhor cresceu?
Antônio — Cara, eu acho o seguinte: existe hoje um problema sério da nova geração em virtude da tecnologia, do celular. E essa política que diz que a pessoa trabalha demais e tem que ficar em casa. Mas não adianta você ficar em casa se você não tiver recurso para ficar em casa. Aí a pessoa vai ficar olhando para uma tela, adoece, não tem para onde ir… As pessoas estão doentes com as telas, precisa ter uma reflexão urgente. O jovem de hoje não quer mais trabalhar em comércio de rua. O meu segmento não tem crise, porque é alimentação. E as pessoas precisam sair para comer, beber e fazer uma social.
MA — Os jovens estariam se acomodando por conta das redes sociais, é isso?
Antônio — Nem tanto, nem todos… Mas hoje os jovens não saem de casa nem para comprar uma pasta de dente. Pedem desses aplicativos aí da vida. Se você perguntar, 80% dos jovens do Rio de Janeiro, da Zona Sul, onde fica a Rua da Carioca, eles não sabem.
MA — É verdade que o senhor pega sua bicicleta, de manhã cedo, e percorre todos os seus empreendimentos?
Antônio — Não todos. Mas, todos os dias, eu acordo por volta das 5h10 da manhã, deixo o café pronto para os meninos em casa, para irem para a faculdade, pego minha bicicleta, vou à academia e depois saio rodando por aí. Se tiver sol, vou sem camisa, para pegar sol, porque eu não tenho tempo para pegar sol, e saio rodando por aí. Em alguns estabelecimentos por onde passo, vejo o que está faltando. Cara, se eu ficar 20 minutos dentro do estabelecimento, é como eu ficar um mês, é como eu ficar um dia. Porque eu oriento os meninos, vejo as coisas, enfim, eu não sei se eu sou maluco, se eu sou doido, se eu sou neurodivergente. Mas eu consigo ver umas coisas que as pessoas acham que não veem. Entendeu?
Porque tem cliente que vê os detalhes. Observo as coisas desorganizadas, a sujeira, as condições dos alimentos, os vestiários, a alimentação do funcionário, porque é muito importante você cuidar do funcionário.
MA — A história que corre nos bares é que o senhor trata com muito humanismo os seus funcionários.
Antônio — Se você não cuidar do funcionário, não adianta, porque você não vai ter uma equipe. E o cliente gosta de vir num lugar em que ele tenha vindo há seis meses e observar que aquela equipe ainda está lá. Isso é muito bom para o ambiente e é muito bom para o cliente. Se ficar trocando toda hora, isso atrapalha muito o andamento da operação. E o cliente sabe quando tem alguém para comandar, alguém responsável. Alguém que diga assim: “Olha, ainda estou aqui. O que você precisar, eu vou te atender”. Você vai por aí e não conhece o dono do estabelecimento. Então eu fico uma horinha num, meia hora no outro… E o gerente sabe disso, que é importante o cliente ser abraçado. Veja que você esteve ontem aqui, o pão não chegou, mas eu fui na mesa, brinquei com você e você voltou (risos). E não tem medo de falar com o cliente.

“Eu não posso negar nada pra esses caras (funcionários). Porque eu fui lavador de pratos, eu fui garçom, eu fui cumim. E esses caras têm uma vida, como se diz, sacrificada.”
MA — Seus funcionários reconhecem sua generosidade. Já ouvi isso em muitos botecos e restaurantes aqui do Rio.
Antônio — Tem que ser. Eu não posso negar nada pra esses caras. Porque eu fui lavador de pratos, eu fui garçom, eu fui cumim. E esses caras, eles têm uma vida, como se diz, sacrificada. O cara não tem transporte. O cara não tem segurança. O cara mora mal. E o cara chega aqui, tá sorrindo. Então esse cara tem que ser abraçado. Um cara desses não pode chegar pra mim e dizer: “Eu preciso de cinco mil!”, e eu dizer que não tenho. Claro que eu tenho. Eu vou mentir pra um cara desses? Não posso!
MA — É verdade que o senhor banca até as viagens de férias quando algum funcionário quer viajar e não tem dinheiro?
Antônio — Às vezes, quando algum deles chega e comenta que vai tirar férias, mas não tem dinheiro pra viajar, eu respondo: “Pega um vale e vai”. “E como eu vou pagar?”, eles perguntam. “Como você puder”, eu respondo.
MA — A essa altura da vida, o que o senhor espera mais da vida, com essa idade e com o patrimônio que tem hoje?
Antônio — Rapaz, olha, o que é que eu espero da vida? Espero que os jovens tenham esperança. Que nós tenhamos um país com mais respeito ao trabalhador. O trabalhador que eu digo não são os pequenos. Mas todo trabalhador. Pode ser eu, você, todos nós. Eu, que produzo, que dou emprego, que acordo às cinco horas da manhã, que venho todo dia, que trabalho de domingo a domingo. Que tenham mais respeito por nós. Pagamos uma carga tributária absurda e não somos respeitados. É isso, é o que eu espero mais. Entendeu? Que eles deem valor ao dinheiro do imposto que a gente paga.
MA — Só para encerrar aqui: o senhor é um homem rico?
Antônio — Eu não sou rico. Eu sou trabalhador.
MA — Mas o seu patrimônio está acumulado em quantos milhões, hoje?
Antônio — Ah, rapaz, esquece isso! (gargalhadas).