Um circo decadente, comandado por um dono tirânico, onde corpos e histórias são expostos como atrações. É nesse universo que se desenvolve o espetáculo solo “Terra de Sal”, que estreia no dia 23 de novembro, às 20h, no Teatro Américo Alvarez, localizado na Avenida Ramos Ferreira, nº 1572, Centro de Manaus. Com atuação e dramaturgia de Sahel Oliveira e direção artística de Henrique Campelo, a montagem discute o preconceito e a exclusão de pessoas com deficiência e neurodivergentes. A entrada é gratuita e a classificação indicativa é de 16 anos.
A partir de uma perspectiva histórica e social, o espetáculo aborda a maneira como a sociedade trata pessoas que estão fora dos padrões considerados normais, evidenciando a discriminação relacionada a características físicas, cognitivas e comportamentais. A obra também questiona a falta de oportunidades e de visibilidade para esses grupos, especialmente nos espaços de produção artística e cultural.
“O solo é uma crítica. Não é uma questão de simplesmente dizer ‘vamos incluir’, mas de criticar a falta de inclusão e questionar as pessoas que se acham normais e perfeitas. Todos podem ter parentes ou amigos neurodivergentes ou com deficiência. Você também pode desenvolver um transtorno, ter alguma deficiência ou sofrer um acidente. O trabalho é principalmente para esse público, para fazer as pessoas refletirem sobre isso”, explica o ator.
Da pesquisa à cena
A ideia do espetáculo surgiu a partir de uma pesquisa acadêmica desenvolvida por Sahel Oliveira e Henrique Campelo. Ao longo dos últimos quatro anos, Sahel investigou a ausência de pessoas com deficiência e neurodivergentes em posições de destaque no meio artístico, relacionando essa realidade à própria experiência profissional.
“‘Terra de Sal’ começou em uma pesquisa da faculdade, a partir de um questionamento sobre a falta de inclusão de pessoas com deficiência e neurodivergentes no teatro e na arte de forma geral. Existe uma escassez muito grande de obras e de artistas que estão nos holofotes. Eu, como uma pessoa neurodivergente, sei que é muito difícil ser artista, ainda mais um artista com autismo, queria fazer uma crítica a essa realidade e foi a partir disso que comecei a desenvolver o trabalho”, conta Sahel.
Durante o processo de pesquisa, a montagem também se aproxima da história dos chamados circos de horrores e dos espetáculos de exibição humana, nos quais pessoas com deficiência e indivíduos com características consideradas incomuns eram apresentados como atrações. Entre as referências está Phineas Taylor Barnum, empresário norte-americano associado à exploração comercial dessas práticas.
A pesquisa artística também incorpora influências do Movimento Pânico, associado aos artistas Fernando Arrabal, Alejandro Jodorowsky e Roland Topor, e do teatro de horror do Grand-Guignol, representado pelo dramaturgo francês André de Lorde. Essas referências atravessam a construção estética e dramatúrgica de “Terra de Sal”, explorando o grotesco, o absurdo, o exagero, o horror e a provocação como recursos cênicos para produzir estranhamento e questionar as relações entre espetáculo, exploração e exclusão.
A partir dessas influências, a dramaturgia tensiona os limites entre espetáculo e exploração, utilizando a figura de um empresário circense que transforma a condição e o sofrimento de outras pessoas em fonte de lucro.
Arte e acessibilidade
A produção conta com consultoria de acessibilidade, audiodescrição, mediação de acessibilidade e interpretação em Libras, com o objetivo de ampliar as possibilidades de participação e acesso do público à montagem.
O Grupo Fome é um coletivo de Manaus que desenvolve produções artísticas e atividades formativas, buscando ocupar novos espaços, promover encontros e ampliar o acesso à arte e à cultura.
Além da estreia, “Terra de Sal” terá uma segunda apresentação no dia 28 de novembro, às 20h, na Casa Teatro Taua-Caá, localizada na Rua Santa Eliana, nº 19, bairro Santa Etelvina, zona norte de Manaus.
O projeto é realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB Amazonas 2026), por meio do Edital de Multilinguagens. O financiamento é do Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura, com execução do Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa.
Equipe de criação e produção
“Terra de Sal” tem direção artística, produção executiva e cenografia de Henrique Campelo, com consultoria artística de Wellington Dias. A criação e a consultoria de iluminação são assinadas por Anna Ângelo, Lannah Braga e Taís Vieira. O figurino é de Dione Maciel, a maquiagem de Mayara Cabral, os adereços de Auzamira dos Santos e a trilha sonora de João Amorim.
A equipe também conta com Árlisson Cruz na assistência administrativo-financeira, Jorge Bandeira na facilitação das atividades formativas, Ísis de Manaus e Abraão Leão na mediação cultural, além de Ivana Andrade, Gutto e Suellen Campos na assistência de produção. A identidade visual é assinada por Isadora Lêda e Erick Lêda, com assessoria de imprensa de Manuella Barros.
A consultoria de acessibilidade é de Gorete Lima, a audiodescrição de Maria Fernanda Carmim, a mediação de acessibilidade de Lay Souza e a interpretação em Libras de Ainã Palheta. O relatório técnico é de Ananda Guimarães.
Serviço
O quê: Estreia do espetáculo solo “Terra de Sal”, do Grupo Fome
Quando: 23 de novembro de 2026, às 20h
Onde: Teatro Américo Alvarez, na Avenida Ramos Ferreira, nº 1572, Centro de Manaus
Entrada: Gratuita
Classificação indicativa: 16 anos