Rio de Janeiro (RJ) – A cultura amazônica, com foco no folclore, na música e até no carimbó do Pará e no boi-bumbá de Parintins (AM), virou a “musa” do verão carioca com o espetáculo “Fafá de Belém – O Musical”, que narra a trajetória da cantora da Amazônia, em cartaz no Teatro Riachuelo. O espetáculo, que comemora os 50 anos de carreira da cantora, é um verdadeiro banho da Amazônia, com suas lendas, mistérios e ritmos, desenhados pela saga de Fafá, marcada pela forte personalidade da artista, seus sucessos inesquecíveis, suas crenças e sua participação política em momentos decisivos da vida do país, com o movimento Diretas Já.
A abertura do musical é feita em vídeo pela própria Fafá, que reafirma o perfil de uma mulher da Amazônia: “sou o que sempre quis ser”.
— Quando canto Chico Buarque, sou uma mulher da Amazônia; quando canto Ruy e Paulo André Barata, sou uma mulher da Amazônia; quando canto Nilson Chaves, sou uma mulher da Amazônia — diz a cantora na mensagem de abertura.
A história de Fafá, filha de uma família de raízes portuguesas e paraenses, começa na cidade de Belém, onde a menina Maria de Fátima Palha de Figueiredo, entre uma peripécia e outra, cresce em meio a quatro irmãos, todos ligados à música por influência da avó paterna e da mãe, que eram cantoras, mas não profissionais.
Três atrizes interpretam Fafá — que comemorará 70 anos de vida em 9 de agosto. A neta de Fafá, Laura Saab, vive a artista na infância e adolescência. A atriz Helga Nemetik, que impressiona pela potência de voz, semelhante à voz da própria Fafá, interpreta a cantora no início de carreira, na década de 1970, quando desembarcou no Rio aos 18 anos e foi parar na trilha sonora da novela Gabriela, da Rede Globo, com “Filho da Bahia”, do compositor baiano Walter Queiroz. A Fafá da fase adulta, madura, é interpretada pela cantora e atriz Lucinha Lins, que incorporou os cabelos platinados e a gargalhada contagiante da artista, sua marca registrada.
O espetáculo revela momentos da carreira da cantora paraense que poucos sabem. A perseguição política que sofreu por ter abraçado a campanha das Diretas Já (1984), cantando em todos os comícios que percorreram o Brasil de ponta a ponta. Na época, contratos foram cancelados, ameaças de morte foram feitas por telefone e até um “aviso” de que sua filha, Mariana, seria sequestrada.
Nesse momento difícil, Fafá foi rotulada por parte da mídia que ainda servia ao governo da ditadura como “cantora pé-frio”, devido à emenda das Diretas ter sido derrotada no Congresso Nacional e o presidente Tancredo Neves — campanha da qual Fafá também participou — ter morrido poucos dias antes da posse.






Fase brega
“Fafá – O Musical” também retrata a fase “brega” em que, desafiando todas as projeções de produtores musicais, ela estourou nas paradas de sucesso, vendendo milhões de discos e fazendo sucesso até em Paris. A peça também destaca que “Vermelho”, toada do amazonense Chico da Silva, estourou no mundo inteiro, chegando a ser cantada em estádios de futebol por torcedores de clubes que usam a camisa vermelha, como o Porto, de Portugal.
Depois de encenar um momento da fé da cantora no Sírio de Nazaré, tradicional festa religiosa de Belém, a montagem chega ao fim da forma mais esfuziante possível, com a entrada do boi Garantido no palco, com o teatro inteiro cantando e aplaudindo a música do boi-bumbá de Parintins. Como escreveu um crítico esta semana em um jornal carioca, “Fafá de Belém – O Musical” trata-se de “um auto popular sobre fé e brasilidade amazônica”.