A Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam) defendeu a criação de um plano permanente de investimentos para reduzir o isolamento logístico da região. Para a entidade, a falta de integração entre rodovias, hidrovias, ferrovias e portos eleva os custos da produção da Zona Franca de Manaus (ZFM). O diagnóstico foi apresentado em reportagem do Valor Econômico.
Em entrevista ao jornal, o diretor da Fieam, Augusto César Rocha, resumiu o desafio: "Precisamos trazer o Estado brasileiro para o século 21 na Amazônia".
A proposta da federação é que 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) da Região Norte sejam destinados, de forma obrigatória, a obras estruturantes capazes de reduzir o chamado "custo Amazônia" — conjunto de despesas adicionais enfrentadas pelas empresas em razão das limitações logísticas da região.
Embora o governo federal tenha destinado cerca de R$ 1,2 trilhão à infraestrutura desde 2021, segundo dados citados pelo Valor Econômico, a Fieam avalia que os investimentos ainda não foram suficientes para eliminar gargalos históricos que dificultam o escoamento da produção.
Dependência dos rios
Segundo Rocha, a logística do Amazonas depende quase exclusivamente da navegação fluvial. Sem uma ligação terrestre plenamente funcional com o restante do país, a economia regional torna-se altamente vulnerável aos eventos climáticos extremos.
Nos últimos anos, as secas severas na bacia amazônica reduziram drasticamente o nível dos rios, comprometendo a navegação de embarcações de grande porte e afetando diretamente a indústria instalada em Manaus.
De acordo com a Fieam, nos períodos mais críticos da estiagem as empresas da Zona Franca chegaram a registrar custos adicionais de aproximadamente R$ 1,4 milhão por dia, em razão de atrasos na cadeia logística e da necessidade de adotar soluções emergenciais para manter o abastecimento e a distribuição de mercadorias.
Sobretaxa na navegação
Outro fator que pressionou os custos foi a chamada "taxa da pouca água", sobretaxa aplicada por empresas de navegação diante das restrições operacionais dos rios amazônicos.
Segundo Rocha, o valor adicional variou entre US$ 1.500 e US$ 2.300 por contêiner, já que os navios precisaram operar com carga reduzida para evitar encalhes.
Rotas alternativas
Com a redução da profundidade dos rios, parte da carga destinada à Zona Franca precisou ser redirecionada para portos como Vila do Conde (PA) e Pecém (CE), de onde segue para o Amazonas em embarcações menores.
Para a Fieam, a mudança aumenta o tempo de transporte, encarece os fretes e reduz a competitividade da indústria amazonense.
Rocha acrescenta que, em diferentes momentos, também foi necessária a instalação de portos flutuantes provisórios, medida emergencial que gerou custos milionários para garantir a continuidade das operações.
Infraestrutura deficiente
A reportagem do Valor Econômico destaca ainda que o problema é agravado pelas condições das rodovias brasileiras. Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que mais de 60% das rodovias federais estão em condições ruins ou péssimas, cenário que aumenta os custos operacionais e reduz a eficiência logística.
Na avaliação da Fieam, superar esses gargalos exige planejamento integrado entre os modais rodoviário, hidroviário, ferroviário, portuário e aéreo, reduzindo a dependência dos rios e garantindo maior previsibilidade ao transporte de cargas.
A integração logística, inclusive, tem sido tema recorrente de debates promovidos pelo setor de transportes e pelo Ministério de Portos e Aeroportos, que defende maior articulação entre os diferentes modais para ampliar a competitividade da Amazônia.
Reforma tributária
A discussão ocorre em meio ao avanço da regulamentação da reforma tributária.
Segundo o presidente da Fieam, Antônio Silva, preservar os incentivos da Zona Franca de Manaus não será suficiente sem a redução dos custos logísticos que hoje comprometem a competitividade das empresas instaladas no Polo Industrial de Manaus.