A Marinha do Brasil concluiu o inquérito que apurou as circunstâncias do naufrágio da lancha da empresa Lima de Abreu Navegações, ocorrido nas proximidades do Encontro das Águas, em Manaus, onde os rios Negro e Solimões se encontram. Segundo a corporação, a investigação entra agora em uma nova etapa: caberá ao Tribunal Marítimo analisar o relatório e decidir se houve infrações às normas de segurança da navegação.
Em nota, o Tribunal Marítimo confirmou o recebimento do inquérito e informou que o processo seguirá os trâmites previstos na legislação e no regimento interno da Corte.
Buscas encerradas
Em 8 de julho, o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) encerrou as buscas pelos cinco desaparecidos, após quase cinco meses de operações. Segundo a corporação, a decisão foi tomada após o esgotamento das possibilidades de localização das vítimas.
Durante as buscas, foram empregados drones, embarcações e equipamentos de sonar para varredura do leito do rio, com acompanhamento dos familiares. O CBMAM informou que permanece de sobreaviso e poderá retomar as operações caso surjam novos indícios.
Familiares de três desaparecidos já solicitaram o boletim de ocorrência registrado no Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), documento necessário para requerer na Justiça a declaração de morte presumida.
Naufrágio
A lancha deixou Manaus por volta das 12h30 quando naufragou na região do Encontro das Águas. Vídeos gravados por passageiros mostram pessoas, entre elas crianças, à deriva, usando coletes salva-vidas ou apoiadas em botes até a chegada do resgate. As causas do acidente ainda não foram oficialmente esclarecidas.
Parte dos ocupantes foi resgatada por embarcações que navegavam pela região antes da mobilização da força-tarefa de salvamento.
Um dos episódios de maior repercussão foi o resgate de um bebê de apenas cinco dias de vida. Para protegê-lo da água, familiares o colocaram dentro de um cooler, que ficou à deriva até ser localizado pelas equipes de socorro. A mãe da criança, que estava em Manaus para o parto, também foi resgatada. Ambos receberam atendimento médico.
Testemunhas relataram momentos de tensão antes do acidente. Uma passageira afirmou ter alertado o piloto sobre a necessidade de reduzir a velocidade devido ao banzeiro — ondas fortes comuns na região do Encontro das Águas. Já na água, ela gravou um vídeo dizendo que havia pedido para que a embarcação diminuísse a velocidade.
Vítimas
Três pessoas morreram no naufrágio: Samila de Souza, de 3 anos; Lara Bianca, de 22; e Fernando Grandêz, de 39.
Samila chegou a ser levada ao Pronto-Socorro da Criança da Zona Leste, mas já estava sem vida, segundo a Secretaria de Estado de Saúde. A menina retornava para Urucurituba após sua primeira viagem a Manaus.
Lara Bianca, natural de Nova Olinda do Norte, cursava Odontologia na capital e estava prestes a concluir a graduação.
Já Fernando Grandêz, cantor gospel conhecido por se apresentar em eventos religiosos em Manaus, teve o corpo encontrado três dias após o naufrágio.
Homicídio Qualificado
O piloto da embarcação, Pedro José da Silva Gama, tornou-se réu por homicídio qualificado após a Justiça do Amazonas aceitar, em 24 de abril, denúncia apresentada pelo Ministério Público do Estado do Amazonas (MPAM).
Na decisão, o juiz Fábio Lopes Alfaia, da 2ª Vara do Tribunal do Júri da Comarca de Manaus, entendeu haver prova da materialidade do crime e indícios suficientes de autoria.
Pedro Gama apresentou-se à Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS) em 16 de março, depois de permanecer cerca de um mês foragido.
No dia do naufrágio, ele chegou a ser preso em flagrante, mas foi liberado após o pagamento de fiança. No dia seguinte, a juíza Eliane Gurgel do Amaral Pinto decretou sua prisão preventiva para garantir a ordem pública e a aplicação da lei penal.