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Negócios inovadores mostram que uma nova economia já está em curso na Amazônia

Navegam e ForestFi são exemplos de empresas apoiadas pela AMAZ que desenvolvem soluções a partir de desafios e potencialidades da região

Foto: Divulgação/Amaz

A Amazônia costuma ser apresentada como um território de possibilidades futuras. Um lugar que poderá, algum dia, transformar sua biodiversidade em riqueza, sua floresta em oportunidade e seus conhecimentos em inovação. Mas, para uma nova geração de empreendedores da região, essa transformação já começou.

É essa perspectiva que a AMAZ, aceleradora de impacto voltada a negócios da Amazônia, leva para o Dia da Amazônia, celebrado neste 5 de setembro. Sob o mote “A Amazônia não é o futuro. É o presente que estamos construindo”, a organização chama atenção para empresas que estão criando soluções a partir dos desafios encontrados na própria região e ajudando a formar uma nova economia amazônica.

Entre elas estão a Navegam e a ForestFi, negócios de naturezas distintas, mas que ajudam a revelar uma característica comum desse ecossistema: os problemas amazônicos também podem ser pontos de partida para inovação, empreendedorismo e geração de valor.

Nos últimos cinco anos, em ciclos de seleção, aceleração e investimento, a AMAZ analisou mais de 500 empresas inscritas e atualmente acompanha 16 negócios em seu portfólio. Para a gestora de portfólio Paula Macedo, essa diversidade acompanha a própria complexidade da região.

“A diversidade do portfólio da AMAZ acompanha a lógica da Amazônia”, afirma. Para Paula, a biodiversidade amazônica pode ser compreendida, também, como um ativo econômico diferenciado. Nesse cenário, manter a floresta em pé não representa apenas uma escolha ambiental, mas uma estratégia de geração de valor.

“Dada a sua diversidade e extensão, só quem tem conhecimento territorial e capacidade de ler os desafios intrínsecos de cada cadeia ou povo é capaz de propor soluções reais”, explica. É justamente essa capacidade de olhar para problemas específicos e transformá-los em soluções que aproxima empresas tão diferentes quanto ForestFi e Navegam.

Capital para a economia da floresta

Criada para enfrentar uma das barreiras encontradas por organizações das cadeias da sociobiodiversidade, a ForestFi trabalha na aproximação entre capital e negócios ligados à bioeconomia amazônica.

O CEO da empresa, Macaulay Abreu, explica que a experiência no território mostrou uma dificuldade recorrente: cadeias produtivas pouco estruturadas, informalidade e acesso limitado e burocrático ao capital de giro.

“Um dos principais desafios que a gente tem aqui na região está muito atrelado a que as cadeias produtivas da Amazônia não são muito estruturadas, tanto num processo de distribuição quanto também de acesso a capital de giro para financiar essas cadeias produtivas”, afirma.

A ForestFi desenvolve mecanismos para facilitar o acesso a recursos e, ao mesmo tempo, reduzir os riscos associados aos investimentos nessas cadeias. A experiência também mostrou que nem todas as organizações amazônicas apresentam o mesmo nível de maturidade para receber recursos externos.

A solução, segundo Macaulay, passa por adaptar os mecanismos de investimento às características de cada cadeia, com levantamento de informações, verificação de dados e processos de diligência que permitam aos investidores conhecer melhor as operações.

“Nem sempre as organizações estão aptas a receber investimentos externos. Acho que essa é uma das grandes lições que nós aprendemos ao longo desse processo”, diz. Uma das estratégias da ForestFi é disponibilizar recursos para que organizações possam formar estoques de produtos da bioeconomia antecipadamente. Com os produtos disponíveis, elas ganham mais tempo para negociar e podem evitar a necessidade de vender imediatamente durante a safra.

Na prática, isso pode aumentar o poder de negociação das organizações e permitir a comercialização dos produtos também na entressafra. A tecnologia entra nesse processo como uma ferramenta para aproximar a Amazônia de uma discussão que já ocorre em outras partes do mundo. A empresa trabalha com a tokenização de ativos oriundos de produtos da bioeconomia.

Para Macaulay, a região não pode ficar à margem dessa transformação tecnológica. “A gente acaba não ficando para trás. A gente tenta construir isso em paralelo à discussão que vem se tendo no mundo sobre esses temas”, afirma.

O empreendedor defende que a sociedade faça uma escolha deliberada pela bioeconomia como um novo vetor econômico para a região, com participação conjunta de empresas, organizações da sociedade civil e poder público.

“Transformar toda essa expectativa que se tem com o vetor econômico da bioeconomia em uma fonte de geração de renda, de emprego, de dignidade para a sociedade amazônica”, diz. É, segundo ele, uma das possibilidades que se abrem.

Sem logística, não há escala

Se a ForestFi trabalha para aproximar capital e cadeias produtivas, a Navegam atua em outro ponto essencial dessa equação: fazer os produtos chegarem ao mercado.

A empresa nasceu com a proposta de sistematizar e dar rastreabilidade à logística fluvial na Amazônia. Com o crescimento do negócio, transformou-se em uma operadora de logística multimodal, conectando diferentes modais de transporte e, principalmente, Manaus a outras regiões do país.

A CEO da Navegam Log, Michelle Guimarães, explica que a empresa percebeu que restringir sua atuação aos desafios internos da Amazônia não atenderia completamente às necessidades de seus clientes.

“Essas empresas daqui precisam escoar seus produtos para o resto do Brasil. E aí a gente se tornou essa solução de logística de ponta a ponta”, afirma. A experiência da empresa mostra como a infraestrutura é determinante para que a bioeconomia consiga avançar.

Michelle cita o transporte de quase 30 toneladas de peixe, principalmente pirarucu, de Fonte Boa, no interior do Amazonas, até São Paulo. O produto precisou passar por voadeira, barco e caminhão, enfrentando limitações estruturais em diferentes etapas do percurso.

Em determinado trecho, foi necessário ocupar o porão de uma embarcação com gelo porque não havia barco com câmara frigorífica disponível. Em Manaus, surgiu outro obstáculo: a falta de estrutura adequada no porto para fazer o transbordo para um caminhão refrigerado. Depois, no deslocamento por estrada, veio outro desafio conhecido pelos amazonenses: as condições da BR-319.

“Enquanto a gente não tem melhoria na infraestrutura logística, na capital, nos interiores, nas estradas, a gente não consegue ter uma escala desses produtos, porque tudo passa pela logística, tudo depende da logística”, afirma.

Para Michelle, a discussão sobre desenvolvimento amazônico precisa incluir as pessoas que vivem no território e suas condições de acesso a serviços e oportunidades. “Não existe desenvolvimento socioeconômico na Amazônia se não existir a melhoria da infraestrutura logística”, diz.

Ela defende que conservação e desenvolvimento não precisam ser tratados como escolhas incompatíveis. “Dá para fazer as duas coisas, dá para conservar e dá para utilizar os recursos que a floresta também oferece”, afirma.

Um ecossistema que amadurece

A trajetória das duas empresas também ajuda a contar uma história sobre o amadurecimento do próprio ambiente de negócios de impacto na Amazônia.

A Navegam foi uma das primeiras empresas aceleradas pela AMAZ. Segundo Michelle, além do investimento, o processo trouxe conhecimento técnico e ferramentas que ajudaram a empresa a compreender melhor a realidade dos municípios do interior, das embarcações e da logística regional.

“A gente conseguiu entender muito como funciona toda a realidade dos interiores, das embarcações e mensurar os impactos que a gente teve. E essas ferramentas a gente adquiriu através da aceleração da AMAZ”, afirma.

Macaulay, por sua vez, entende que uma das contribuições de uma empresa amazônica é produzir conhecimento que possa ser aproveitado por outros empreendedores. “Enquanto empreendedor que pensa a Amazônia e que trabalha na Amazônia, eu acho que o nosso papel está muito relacionado a gerar cases, gerar resultados, inclusive resultados negativos, e transformar isso em aprendizagem coletiva”, afirma.

Na avaliação de Paula Macedo, esse processo já está produzindo mudanças no ambiente de negócios regional. Ao longo dos cinco anos de atuação da AMAZ, além das mais de 500 empresas analisadas, a organização acompanhou o surgimento de novas aceleradoras e fundos na região e a chegada de investidores locais e internacionais interessados especificamente na sociobiodiversidade amazônica.

“Somos um ecossistema muito empreendedor e pulsante no que tange à busca por soluções de negócios, já capaz de identificar lições aprendidas e aprimorar estratégias de mercado”, afirma. É nesse ambiente que empresas de diferentes setores passam a compor uma mesma engrenagem. A ForestFi trabalha para destravar capital para cadeias da sociobiodiversidade. A Navegam ajuda a conectar produtos e mercados por meio da logística.

“Negócios como a ForestFi, que viabiliza crédito para cadeias da sociobio, e como a Navegam, que apoia o escoamento desses ativos, fortalecem o ecossistema como um todo”, resume Paula. A lógica é simples, mas ainda representa uma mudança importante: a floresta não precisa ser vista apenas como algo a ser protegido ou como uma promessa econômica distante. Ela pode ser a base de negócios capazes de gerar renda, inovação e oportunidades hoje.

Neste 5 de setembro, o Dia da Amazônia também pode ser uma celebração de quem já está construindo essa transformação — empreendedores, comunidades, pesquisadores e organizações que procuram criar valor a partir das características do próprio território.

A Amazônia não é o futuro. É o presente que está sendo construído.

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