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Trilha do Curupira faz sucesso ao transformar denúncia em arrepio

Com forte repercussão entre torcedores e amantes do Festival, a toada transforma o Curupira em símbolo de resistência contra a devastação da floresta

Os compositores Ronaldo Barbosa Júnior e Ronaldo Barbosa - Arte: marioadolfo.com/GPT

Figura arquetípica do imaginário amazônico, o Curupira, guardião indômito das matas, tem sido, ao longo das décadas, recorrente inspiração no Festival de Parintins. Tradicionalmente descrito por seus traços físicos singulares, os pés voltados para trás, a cabeleira em chamas, a tez de coloração incomum e sua habilidade de ludibriar aqueles que ousam agredir a floresta, o ente mítico sempre ocupou o espaço simbólico de defensor da natureza. Contudo, na mais recente abordagem concebida pelos compositores Ronaldo Barbosa e Ronaldo Barbosa Júnior, essa representação transcende o campo meramente descritivo e adentra uma dimensão mais densa, sensível e psicológica da entidade.

Nesta nova leitura, o Curupira deixa de ser apenas uma figura estática do folclore para assumir contornos de personagem complexo, dotado de personalidade, intenção e comportamento. Ele não apenas habita a floresta, ele a percorre com leveza quase etérea, insinuando-se entre troncos e sombras, desenhando trilhas invisíveis e arquitetando percursos ilusórios que confundem e desorientam seus algozes. Sua presença se manifesta tanto no silêncio estratégico quanto no assobio inquietante que ecoa pelas matas, ora como advertência, ora como armadilha sonora. Há, inclusive, uma nuance inédita em sua caracterização: o sorriso irônico, quase desafiador, que revela uma consciência aguçada diante da ameaça humana, um traço raramente explorado nas narrativas tradicionais.

E há ainda um elemento simbólico de notável potência poética: o fogo do Curupira, aqui, não se confunde com a devastação das queimadas provocadas pelo homem. Ao contrário, trata-se de uma chama de outra ordem, uma gargalhada incendiária, viva e indomável, que não consome a floresta, mas incendeia a alma e a visão do predador. É um fogo que ilumina e perturba, que desnorteia e revela, projetando no invasor o reflexo de sua própria violência. Nesse sentido, a chama do Curupira não destrói a natureza: ela arde como consciência, como aviso e como força espiritual que protege o que é sagrado.

Os compositores avançam ainda mais ao introduzir um antagonista de forte carga simbólica: o chamado “monstro correntão”. Longe de ser uma criatura fantástica no sentido clássico, o correntão é, na realidade, a personificação de uma prática devastadora amplamente conhecida nas regiões do Cerrado e da Amazônia. Trata-se de um método de desmatamento que utiliza uma pesada corrente de aço, arrastada por tratores, capaz de dizimar vastas áreas de vegetação em questão de horas. Sua ação é brutal: arranca raízes, destrói nascentes, compromete o solo e extermina a fauna, configurando-se como um dos mais violentos instrumentos de agressão ambiental já concebidos. Ao elevá-lo à categoria de “monstro”, a narrativa não apenas denuncia, mas também mitifica a destruição, transformando-a em inimigo direto do guardião da floresta.

Diante dessa ameaça, o Curupira revela uma dimensão ainda mais potente de sua essência: a capacidade de transmutação. Sua revolta, incandescente como sua própria cabeleira, o conduz a assumir múltiplas formas de vigilância e resistência. Ele se desdobra nos olhos d’água, guardiões silenciosos das nascentes; nas harpias, soberanas dos céus amazônicos; no gavião-real, símbolo de força e imponência; no urutau, cuja camuflagem e canto melancólico evocam o mistério da mata; e na onça-preta, expressão máxima de astúcia e ferocidade. Cada metamorfose é, ao mesmo tempo, estratégia de defesa e manifestação de uma natureza que reage, que observa e que não se rende.

Entretanto, a narrativa não se sustenta apenas na tensão entre destruição e resistência. Há, também, um sopro lírico de esperança. Em versos que evocam cuidado e regeneração, “vigia os ninhos, reflora a esperança enraizada no broto que guarda teu assobio”, o Curupira emerge como agente de preservação, não apenas como guerreiro, mas como semeador de continuidade. Ele encarna, assim, valores fundamentais como coragem, resiliência e compromisso com a perpetuação do ecossistema, elevando-se à condição de símbolo ético diante das urgências ambientais contemporâneas.

Por fim, em um gesto de afirmação definitiva, o Curupira recusa-se a aceitar a devastação como destino inevitável. Sua resposta é contundente: um brado que ecoa como sentença e advertência: “Bota pra correr! Bota… pra correr!”. Mais do que um ato de vingança, trata-se de um rito de expulsão, um limite imposto ao avanço predatório humano. É a floresta, por meio de seu guardião, reivindicando seu direito à existência.

Essa releitura da lenda do Curupira, portanto, não apenas enriquece o repertório simbólico do Festival de Parintins, mas também dialoga de maneira profunda com as questões ambientais do nosso tempo. Ao fundir mito e realidade, poesia e denúncia, tradição e reinvenção, os compositores oferecem uma obra que ultrapassa o entretenimento e se inscreve como reflexão necessária sobre a relação entre o homem e a natureza.

Roberto Sena é jornalista e pesquisador, apaixonado pela cultura popular e pelo folclore amazônico. Com 26 anos de vivência no Festival de Parintins, sendo mais de duas décadas dedicadas à cobertura jornalística e à análise crítica do espetáculo, construiu uma trajetória marcada pela investigação e valorização das múltiplas dimensões culturais que fazem do Festival um dos maiores patrimônios simbólicos do Brasil.

Confira abaixo a icônica toada de Ronaldo Barbosa e Ronaldo Barbosa Júnior, com arranjos de Leonardo Pantoja, Valdenor Filho, mixagem e masterização de Emerson Trindade, e interpretação energética e magnética de Patrick Araújo.

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