O restaurante Banzeiro, fundado em Manaus pelo chef Felipe Schaedler e com unidade em São Paulo desde 2019, voltou a integrar o Guia Michelin Brasil em sua edição de 2026. A menção, confirmada no site oficial da publicação e registrada pelo próprio portal na última atualização, é o terceiro reconhecimento consecutivo do estabelecimento na categoria Bib Gourmand, que distingue restaurantes com alta qualidade gastronômica e boa relação custo-benefício. As edições anteriores com a menção foram 2020 e 2024, com um intervalo entre 2021 e 2023, período em que o guia suspendeu suas atividades no Brasil.
A edição 2026 foi anunciada na noite desta segunda-feira (13) em cerimônia no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, e marcou um momento inédito na história da gastronomia nacional. Pela primeira vez na América Latina, dois estabelecimentos alcançaram a mais alta distinção do guia: os paulistanos Evvai e Tuju conquistaram Três Estrelas Michelin, ingressando no grupo mais seleto da gastronomia mundial — formado por apenas 154 endereços no planeta.
Nesse contexto de avanço da gastronomia brasileira, a manutenção do Banzeiro na seleção reafirma o lugar da culinária amazônica no circuito gastronômico de referência do país.

O restaurante e suas raízes manauaras
Em 2009, em Manaus, Felipe Schaedler inaugurou ao lado dos pais o restaurante Banzeiro, dedicado à cozinha local. O nome foi escolhido com propósito: banzeiro é o termo que designa o movimento agitado das águas dos rios provocado pela passagem de grandes embarcações — fenômeno cotidiano para quem vive às margens dos rios amazônicos.
A matriz do Banzeiro segue funcionando em Manaus, no bairro Adrianópolis, e é dela que partiu a proposta que levou a cozinha do Amazonas à capital paulista e, posteriormente, à atenção dos inspetores do Michelin.
À frente do Banzeiro, Schaedler conquistou o prêmio de “Melhor Restaurante do Norte” em 2016 pela Revista Prazeres da Mesa, e foi eleito “Chef do Ano” e “Melhor da Cidade” com o restaurante pela Revista Veja Manaus Comer & Beber em 2017. Em agosto de 2019, o chef levou para São Paulo uma filial do Banzeiro.
Atualmente, apenas 39 restaurantes integram a lista Bib Gourmand com casas do Rio de Janeiro e de São Paulo que possuem alta gastronomia a um bom preço.
O chef e sua trajetória
Felipe Elias Schaedler nasceu em Maravilha, Santa Catarina, filho de Nelsa Helena Schaedler e Ivar Luis Schaedler. Chegou a Manaus em 2004 e, em 2008, foi graduado em Gastronomia pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (Ciesa). Fez também pós-graduação em Gastronomia e Cozinha Autoral pela PUC do Rio Grande do Sul.
Schaedler tinha 15 anos quando se mudou com os pais de Maravilha, no Oeste de Santa Catarina, para Itacoatiara, a 270 quilômetros de Manaus, no Amazonas. A mudança foi como chegar a um novo país, nas palavras do próprio Felipe. Não se deixe levar pelos cabelos louros e os olhos claros. Nascido em Maravilha, é a Amazônia que move seu trabalho: “Minha casa pode ser em vários lugares, mas o meu lar é o Amazonas.”
De origem alemã, Schaedler abandonou o projeto de estudar Direito para se dedicar à gastronomia. Começou a frequentar as feiras do Amazonas, buscando se informar sobre os ingredientes amazônicos. Em 2009, abriu o Banzeiro, onde deu toques contemporâneos à culinária tradicional da região. Foi eleito pela revista Forbes um dos 30 brasileiros com menos de 30 anos mais influentes, em 2014, e recebeu em 2012 a Ordem do Mérito Cultural.
O que o Michelin diz sobre o Banzeiro
Segundo a ficha do restaurante no site oficial do guia, a cozinha do Banzeiro é classificada na categoria Bib Gourmand como “nossas melhores relações qualidade-preço”.
O texto dos inspetores descreve o restaurante como visita obrigatória no Itaim Bibi para quem deseja mergulhar nos sabores amazônicos, e destaca a cozinha à base de fogo e brasa com técnicas ancestrais ainda utilizadas no norte do país.
No cardápio que chamou a atenção dos avaliadores: a Formiga Saúva servida com purê de mandioquinha, o Tacacá com caldo de tucupi, jambu e camarões secos, a Matrinxã recheada com farofa de banana e assada em folha de bananeira, e a sobremesa Brûlée de banana com puxuri.

O que é o Guia Michelin
Criado em 1900 pela fabricante de pneus francesa Michelin, o guia nasceu como uma publicação para motoristas, com mapas, dicas de manutenção e sugestões de onde comer e se hospedar durante viagens. Com o passar do tempo, passou a se destacar pelas recomendações gastronômicas e, a partir de 1926, começou a conceder estrelas a restaurantes — sistema que se tornou um dos selos de excelência mais respeitados do setor.
Diferente de outros prêmios do setor que compilam votos de jurados, o Michelin decide quais endereços premiar a partir de avaliações feitas por inspetores próprios — especialistas em gastronomia que visitam os restaurantes de forma anônima, utilizando às vezes nomes falsos para fazer reservas. Ao comer, avaliam critérios como qualidade dos ingredientes, personalidade que o chef expressa na cozinha, domínio de técnicas e regularidade. Os inspetores fazem 250 refeições por ano e documentam as experiências em relatórios detalhados, com as despesas por conta da publicação.
Em sua versão brasileira, o Michelin avalia somente endereços nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro desde que estreou no país, há 11 anos. A edição brasileira foi a primeira publicada na América do Sul. O guia ficou sem edição no Brasil de 2021 a 2023 e voltou graças a um investimento conjunto de R$ 9 milhões das prefeituras de São Paulo e do Rio de Janeiro.