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Entrevista: O recomeço de Arthur Virgílio

Cinco anos depois de deixar a Prefeitura de Manaus, ex-senador, ex-ministro e ex-prefeito prepara retorno às urnas como candidato a deputado federal pelo MDB e cobra uma bancada “forte e temida” em defesa da Zona Franca.

Em entrevista exclusiva ao marioadolfo.com, o ex-prefeito fala sobre política, governo Lula, Bolsonaro, Zona Franca, David Almeida, Omar Aziz, Roberto Cidade e os rumos do Amazonas - Fotos: Marcus Vinícius/marioadolfo.com

Cinco anos depois, o ex-prefeito volta para disputar o cargo de deputado federal, o mesmo para o qual se elegeu pela primeira vez, em 1982

A casa do ex-prefeito Arthur Virgílio Neto (MDB) tem um jeito de “recanto do guerreiro”. Ampla, arejada, aconchegante e erguida no meio de um bosque, expulsa para longe a estufa insuportável que se abateu sobre Manaus neste fim de julho de verão amazônico.

Entro nessa ilha de tranquilidade com certo receio de dois cachorros – Honda, da raça american starford-shaire, e Thor, da raça american starford-shaire com pitbull –, que pelo tamanho, amedrontariam até o Dr. Dolittle, o médico capaz de falar e entender a língua dos animais. Mas a pauta histórica vale qualquer sacrifício — até enfrentar as feras, que, depois de farejar a perna do repórter, demonstram ser dóceis e brincalhonas.

Vamos entrevistar o político Arthur Virgílio Neto, 80 anos, diplomata, sociólogo, ex-deputado federal, ex-senador, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República durante o governo FHC e prefeito de Manaus por três mandatos. No primeiro, em 1988, fez história ao derrotar o até então imbatível ex-governador Gilberto Mestrinho.

— Tive que enfrentá-lo e o venci. Mas não queria que fosse ele. Afinal, era um dos melhores amigos do meu pai e eu o admirava — diria, minutos depois, na conversa que tivemos nesta quarta-feira (29).

Arthur demora cerca de 15 minutos para aparecer, pois estava atendendo a um telefonema. A espera acaba e ele vem andando lentamente pelo corredor. Está magro e não parece o lutador de jiu-jitsu que conhecemos nas décadas de 1970, 1980 e 1990. Mas a aparente fragilidade engana. Virgílio começa a se agigantar outra vez quando começa a falar.

— Eu não critico ninguém pela idade. Eu próprio sou um exemplo de que, com a idade que tenho, estou superinformado, supercapaz, com a cabeça em dia — avisa logo.

O estilo é o de sempre: discurso incisivo, lúcido, crítico, contundente e irreverente quando precisa ser. Cortante feito faca amolada quando é crítico. E suave quando fala de coisas boas, como as velhas lembranças de seus 48 anos de vida pública.

— Ele não saberia viver longe da política! — disse sua mulher, a arquiteta Elizabeth Valeiko, que fez sala enquanto aguardávamos o marido.

Depois que encerrou o terceiro mandato de prefeito, em 2021, Arthur Virgílio se transferiu para São Paulo, onde passou uma temporada. Cinco anos depois, decidiu voltar para Manaus e “recomeçar tudo de novo”, como candidato a deputado federal pelo MDB.

Nesta conversa com o portal marioadolfo.com, ele fala de sua visão sobre o cenário político atual, cobra mais determinação da bancada do Amazonas na defesa da Zona Franca de Manaus, aponta onde Manaus regrediu depois que ele deixou a Prefeitura e reafirma que a fase das ideologias ficou para trás:

— Não sou de esquerda, não sou de direita. Não sou de bola, nem rebola, nem carambola. Não tenho nenhuma vinculação com isso. Eu só quero saber onde está a razão!

Arthur Virgílio voltou. E do jeito que o conhecemos. Confira a entrevista.

marioadolfo.com – O senhor já foi senador, ministro e prefeito de Manaus. O que ainda falta Arthur Virgílio fazer na política que justifique uma nova candidatura a deputado federal?

Arthur Virgílio – Eu repito aqui o doutor Ulysses Guimarães. O doutor Ulysses falava que, para ele, a política só tinha porta de entrada; não tinha porta de saída. Então, eu me sinto útil, me sinto em plena forma para trabalhar, para representar bem o meu Estado, para não permitir nenhuma inibição.

Porque o grande segredo de uma bancada, sobretudo quando ela é pouco numerosa, é ter a seguinte característica: tem que ser unida, tem que ser preparada, tem que ser forte nas suas opiniões e tem que ser, inclusive, temida. Ninguém fica brincando com ela.

Então, não acontecerá nada diferente disso se eu realmente for para o Parlamento brasileiro. Porque, quando eu falava em Zona Franca, se eu dizia que a sessão não ia funcionar naquele dia, era porque eu tinha o mecanismo para fazer a sessão não funcionar.

Eu começava a dizer: “Olha, faleceu fulano de tal, da Academia Brasileira de Letras. O atleta fulano de tal ganhou uma medalha de ouro em tal competição”. Então, vamos primeiro homenagear essas pessoas, depois a gente passa a votar.

Daqui a pouco entrava uma turma que me seguia e dizia: “Pela ordem, senhor presidente”. Nessa de “pela ordem, pela ordem, pela ordem”, a gente acabava com a ordem do funcionamento do Congresso. E, quando o presidente cobrava: “Arthur, você atrapalhou a sessão”, eu respondia: “Sim, vou atrapalhar todas. É só o senhor suspender qualquer coisa que prejudique os empregos do meu povo, da minha gente. Então, por favor, vamos cada um se segurar por um lado. O meu é votar sim aqui, mas dizer não de qualquer jeito”.

marioadolfo.com – A Zona Franca de Manaus continua sendo o principal tema da bancada amazonense. O senhor acha que a defesa do modelo perdeu força, qualidade técnica ou articulação política nos últimos anos?


“O nosso Estado é estratégico,
a nossa floresta é fundamental.
E eu vejo que as pessoas podem
olhar para a floresta até com uma
certa inveja, querendo ter uma igual”

Entrevista foi feita na casa de Arthur

Arthur Virgílio – Em meus mandatos, a Zona Franca sempre foi prioridade. Principalmente quando surgia qualquer tipo de ameaça. Eu advertia logo que eles estavam ameaçando o único polo que nos sustenta, o único projeto que nos sustenta, que é a Zona Franca, que segura a floresta.

Se a floresta ruísse e virasse um deserto, ia chover muito menos em São Paulo, ia chover muito menos em outras regiões, porque as nossas chuvas voadoras, as nuvens voadoras, vão derramando água por tudo que é lugar. E, por outro lado, se a gente perdesse a floresta amazônica, estaria complicando ainda mais o clima do planeta.

Ou seja, o nosso Estado é estratégico, a nossa floresta é fundamental. Eu vejo que as pessoas podem olhar para a floresta com inveja, querendo ter uma igual, ou podem olhar para ela com respeito. Alguns olham com ignorância, não entendem muito o papel ótimo que ela cumpre no planeta.

marioadolfo.com – Ao longo da sua vida política, o senhor conviveu com nomes históricos, como Gilberto Mestrinho, Fábio Lucena, Jefferson Péres, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Fernando Henrique Cardoso. Como o senhor avalia hoje o cenário político do país?

Arthur Virgílio – O meu objetivo vai ser a realidade.

marioadolfo.com – Depois de ter ocupado cargos de maior projeção nacional, disputar uma vaga na Câmara é um recomeço, uma missão estratégica ou uma tentativa de voltar ao jogo político?

Arthur Virgílio – Para mim, é retomada. A retomada do jogo político. Por exemplo, eu sento em um restaurante daqueles movimentados de São Paulo e falo com 10, 20, 30 pessoas. É a mesma coisa no Rio de Janeiro, a mesma coisa quando vou para o Rio Grande do Sul. Quer dizer, eu construí um nome no país. Então, esse nome tem que ser usado, seja para negociar altivamente vantagens para o nosso Estado, seja para mostrar que não é brincadeira.

Eu sempre procuro aqueles Estados que estão com problemas com o governo federal, em questões que envolvem dinheiro, envolvem recursos. Aí eu me solidarizo e, daqui a pouco, eles se solidarizam comigo.


“Eu não lambo bota de ninguém.
E nem mocassim, nem sandália.
É preciso não chegar lá em Brasília
e dizer assim: ‘estou aqui!’
Foi o que eu fiz no meu primeiro
mandato, ainda na ditadura militar”

Mário Adolfo e Arthur

marioadolfo.com – O senhor ficou famoso pelos embates históricos na tribuna do Senado e da Câmara, não é?

Arthur Virgílio – É assim que se deve falar com as outras bancadas. É preciso não chegar lá, em Brasília, com cabeça provinciana. É preciso chegar lá e dizer: “Estou aqui”. Foi o que fiz no meu primeiro mandato, ainda dentro da ditadura militar.

Quando comecei a botar a manguinha de fora, um deputado — se não me engano, foi o Siqueira Campos, que foi governador do Tocantins, deputado federal, senador e aliado da ditadura militar — falou assim:

— Vossa Excelência veio aqui para fazer o quê?

Eu respondi:

— Vim ajudar a enfraquecer e a derrubar a ditadura militar. É por isso que estou aqui.

E ele insistiu:

— Você tinha que ser deputado no tempo do seu amigo Kubitschek.

— Infelizmente, ele não é meu amigo. Eu era muito criança quando ele presidiu o país. Mas eu teria sido, porque ele desempenhou um papel muito melhor que o seu!

Disse isso porque ele lambia a bota de militar ditador. E eu não lambo bota de ninguém. Nem mocassim, nem sandália!

marioadolfo.com – O senhor chega a esta eleição com o peso da experiência. Mas como responder a quem diz que a política precisa de renovação, sangue novo, outra cabeça, e não da volta de nomes tradicionais? Como o senhor se posiciona diante dessa crítica?

Arthur Virgílio – Eu não critico ninguém pela idade. Eu próprio sou um exemplo de que, com a idade que tenho, estou superinformado, supercapaz, com a cabeça em dia. Agora, veja bem: entendo que a bancada tem que ser muito firme. E eu seria muito firme, porque sempre fui muito firme.

Sou a favor de renovar, mas com cuidado. Não é colocar qualquer pessoa que depois mostre infantilidade no Parlamento, o que seria vergonhoso para nós.

Agora, falando em idade, dou muito pouca importância para a idade. Sou uma pessoa, como você diz, de certa idade, mas, em compensação, estou em forma, estou inteiro, tenho todo um cabedal político.

Quero citar o exemplo de uma pessoa muito avançada na idade que foi uma verdadeira vitoriosa na guerra contra o nazifascismo: Winston Spencer Churchill. Foi ele, não foi outra pessoa. Não foi o presidente americano, não foi o presidente do Brasil, não foi nada disso. Foi ele. Ele enfrentou e enfraqueceu bastante o avanço dos nazistas.

Churchill conseguiu uma coisa impossível. Conseguiu juntar Estados Unidos, Inglaterra, França e União Soviética, com Josef Stalin. Tenho a impressão de que a única coisa decente que Stalin fez na vida foi enfrentar o nazifascismo. A única coisa decente que ele fez. O resto foi crime. Matou 45 milhões de pessoas.

marioadolfo.com – A Zona Franca de Manaus continua sendo o principal tema da bancada amazonense. O senhor acha que a defesa do modelo perdeu força, qualidade técnica ou articulação política nos últimos anos?

Arthur Virgílio – Eu não tenho acompanhado tanto, mas talvez a gente precise reforçar isso. E vamos reforçar. A Zona Franca tem que ser defendida assim, com vigor. Acho que você tem que chegar lá com disposição nacional, mas não pode esquecer a sua terra.

A minha terra é a minha terra. Já tive convite para ser deputado e senador por São Paulo, já tive convite pelo Rio de Janeiro, já tive convite por Goiás. Minha terra é aqui. Minha terra é aqui, mas eu não sou provinciano. Então, saio daqui para representar minha terra, para defender minha terra. Isso me faz muito bem.

Faz eu me sentir muito bem porque consigo ser um homem que trafega por tudo que é lugar. Não só aqui, mas até fora daqui, fora do Brasil. E trafego de um jeito muito tranquilo, com muito respeito das pessoas.

Eu também respeito, sei respeitar as pessoas, sei dar oportunidade a quem está aprendendo, sei dialogar com quem já aprendeu tudo. Mas cito o exemplo do Churchill, que é um exemplo tremendo. Imagine substituir o Churchill em plena guerra contra o nazifascismo e colocar um garotão lá, de 28 anos.


“Eu venci Gilberto Mestrinho,
que era uma coisa difícil.
Estava enfrentando um dos melhores
amigos do meu pai. Tive orgulho
dessa vitória, mas eu preferia
que tivesse sido outra pessoa”

Arthur é candidato pelo MDB

marioadolfo.com – Quando olha para Manaus hoje, o que o senhor acha que piorou — ou melhorou — desde que deixou a Prefeitura, em 2021? O que o ex-prefeito vê de diferente da cidade que deixou e que poderia ter avançado?

Arthur Virgílio – Vejo uma grande diferença. Por exemplo, decaiu o processo de asfaltamento. Acredito que Manaus está com menos tranquilidade para o carro trafegar, sem pulos, sem saltos.

Por outro lado, não sei como está a situação financeira. Eu nunca deixei Manaus com problemas financeiros. Governei Manaus três vezes e, nas três vezes, deixei superávit. Deixei dinheiro em caixa. Esse último mandato, então, foi a coroação de todo um aprendizado que fiz.

Eu venci Gilberto Mestrinho, que era uma coisa difícil. Gostava dele como pessoa, mas tive que enfrentá-lo porque era o desejo de muita gente que eu fosse candidato. E, por outro lado, eu estava enfrentando um dos melhores amigos do meu pai. Mas, muito bem, enfrentei. Consegui vencer. Tive orgulho dessa vitória, mas eu preferia que tivesse sido outra pessoa. Gostaria que tivesse sido outra pessoa.

Assim como também custei muito a me dar bem com o Amazonino, mas me dei bem com ele finalmente. Terminamos muito amigos. E vejo muito mérito nele também, porque, se é verdade que meu pai fundou a UFAM, é verdade que ele fundou a UEA.

Se é verdade que meu pai tinha na cabeça que o Amazonas não deveria ser exportador de cérebros, é verdade também que Amazonino soube prender os cérebros aqui, com a UEA. Então alguém pode dizer: “Vou estudar em tal lugar”. Vá! Seja feliz. Mas aqui se prepara a pessoa que não precisa necessariamente estudar fora, graças, sem dúvida alguma, a certas universidades particulares, graças à UFAM, Universidade Federal do Amazonas, e graças à UEA, que foi feita pelo Amazonino. Ele e meu pai se completaram nessa história.

Fico muito feliz com isso. Fico feliz também porque acho que eu e o Amazonino perdemos muito tempo brigando. De repente, vimos que nós tínhamos mesmo era que estar unidos.

marioadolfo.com – Olhando pelo retrovisor, o senhor começaria tudo de novo? Se tivesse que escolher, teria sido o tribuno brigando por sua terra ou priorizaria o administrador de uma cidade difícil como Manaus?

Arthur Virgílio – Fiquei três mandatos como administrador de Manaus. Depois, fui ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República. Era o ministro mais próximo do presidente da República, o presidente Fernando Henrique, que foi disparadamente o melhor presidente que o Brasil já teve, já conheceu.

Por outro lado, vejo assim: os 12 anos que tive como prefeito são poucos, levando em conta os outros anos que passei no Parlamento. Tenho 48 anos de vida pública, completados em maio. Tudo começou em 1978. Saí de uma eleição como o segundo mais votado na capital e com um início de votação bem razoável no interior.

marioadolfo.com – Mas, no seu coração, o senhor é mais tribuno ou administrador?

Arthur Virgílio – Olha, acho que sou tribuno e administrador. Porque muita gente dizia, sobretudo quem não gostava muito de mim, que “o Arthur é um grande gênio da tribuna, mas como administrador não”. Aí eu vim e mostrei como se faz ajuste fiscal, como se gasta menos do que se arrecada, como se tem dinheiro da própria arrecadação para investir.

E, obviamente, aqueles empréstimos que interessam, eu fiz alguns, porque era dinheiro que vinha com juros muito propícios para você aceitar. E eu governei. Então, acho que tanto faz o administrador como o tribuno. Para mim, o resultado foi o mesmo. Porque o importante é você ter a coisa pública como uma meta a ser respeitada. Respeitar a coisa pública. Quem não respeita a coisa pública perde o direito ao mesmo respeito.

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No palanque de Lula?

marioadolfo.com – O senhor está em uma coligação com dois senadores, Omar Aziz, do PSD, e Eduardo Braga, do MDB, ligados ao presidente Lula. Pelo que conheço, o senhor faz oposição ao Lula. Como vai ocupar um palanque onde os dois principais caciques defendem o governo Lula e o senhor não?

Arthur Virgílio – Primeiro porque nós temos uma enorme compreensão uns dos outros. E eu tenho maturidade suficiente para pensar por mim. Não quer dizer que, por isso, eu vá votar no outro candidato.

Eu quero simplesmente ver qual dos dois, até o final da eleição, é o melhor retrato de Brasil, a melhor proposta de retrato do Brasil. Aí vai pesar maturidade, vai pesar limpeza, vai pesar honestidade, tudo isso.

Para mim, o candidato a presidente da República deveria ter sido o Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, bolsonarista. Mas ele não quis peitar essa luta. Ele seria um candidato à altura para enfrentar o presidente Lula, e eu votaria nele tranquilamente. Muito tranquilamente mesmo.

Mas agora estou diante de uma enorme interrogação. Quero aguardar mesmo, ver como se portam, como vão ser, e me definir. Porque também não gosto de votar à toa, de votar em branco ou nulo. Vou votar em alguém, mas quero ver quem vai ser. Que falem e que ganhe esse modestíssimo eleitor aqui.

marioadolfo.com – O eleitor de 2026 é muito diferente do eleitor que o senhor encontrou quando esteve no Parlamento. Como pretende conquistar esse novo eleitor, ligado às plataformas digitais, com outra cultura, outro universo e outra forma de lidar com a política?

Arthur Virgílio – Olha, eu ouço as pessoas. Não me detenho apenas no passado. Eu vejo. Quando sinto que há valor em alguém, em mudanças, reconheço isso.

A conquista do eleitor novo é diferente? É. Mas eu também mudei. Conheço bem o eleitor de hoje e espero que ele também me reconheça. Recebo muita adesão de pessoas jovens, sabe? Muita adesão mesmo. Eles vêm e falam.

marioadolfo.com – Como o senhor pretende pautar a sua caminhada de volta ao Parlamento? Já tem uma estratégia?

Arthur Virgílio – Visitar bastante o interior, visitar bastante Manaus. Tenho um carinho pelo povo de Manaus e um carinho muito grande pelo interior também. Enfim, quero que eles saibam que estão diante de uma pessoa que jamais os deixou. Jamais os deixou.

Aliás, fui parlamentar seja no século XX, seja no século XXI, e sempre voltei para cá para ser prefeito de Manaus, pela segunda e pela terceira vez. Tinha sido a primeira em 1988, naquele episódio que a gente já relatou aqui, que foi o combate contra aquele gigante da política que era Gilberto Mestrinho.

marioadolfo.com – O senhor acredita que ainda existe discriminação contra a Região Norte, principalmente contra a Amazônia?

Arthur Virgílio – Acho que sim. Acho que há muita ignorância sobre a Amazônia e uma certa discriminação. Por exemplo, São Paulo, por parte de seus empresários, não entende que era melhor ser nosso sócio aqui, fazer a bioeconomia funcionar, fazer a biodiversidade funcionar.

Trazer três, quatro, cinco, seis indústrias pesadas de bioindústria, projetos que dariam muito dinheiro para nós e para quem se associasse a nós. Mas eles entendem que o importante é ficar cutucando a Zona Franca, mesmo sabendo que nós temos uma garantia constitucional e mesmo sabendo que nós temos, em relação à Reforma Tributária, uma lei que foi questionada pela Fiesp.

Eu me dou muito bem com o presidente da Fiesp, que é o Paulo Skaf, e disse a ele:

— Paulo, seja nosso sócio em vez de ser nosso adversário. Porque é difícil você ganhar uma luta contra nós desde que a Justiça funcione como Justiça. Nós temos a garantia constitucional. E essa lei que está sendo contestada por vocês, que é a lei da Reforma Tributária, essa lei que a Fiesp não votou, foi relatada pelo Eduardo Braga. Ela não mexe tão forte assim em favor da Zona Franca, mas dá um respiro a mais. E acho que o senador fez muito bem.

Então eu digo assim: “Paulo, seja nosso sócio. Não vamos ficar brigando mais. Vocês podem ter mais derrotas na Justiça, porque nós temos essas garantias todas. Essa lei está garantida pela soberania do Congresso. E, por outro lado, a Zona Franca de Manaus está garantida pela Constituição. Mas é só teimosia”.

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Sobre Omar Aziz

marioadolfo.com – O senhor era tido como um parlamentar brigão. Ao longo da caminhada política, rompeu com Gilberto Mestrinho e, lá na frente, reatou. Fez uma grande parceria com o senador Omar Aziz, depois rompeu. Então, o senhor é mais brigão ou conciliador?

Arthur Virgílio – Eu não sou de recalques, nem de raiva, nem de ódios. Quando discordo, é porque discordei mesmo e assumo o papel do discordante. Mas, quando vejo que há espaço para conversar direito, vou e converso direito.

Em relação ao Omar, há uma grande amizade entre a gente, porque, em determinado momento da vida dele, fui muito forte na defesa dele. Por outro lado, ele salvou a vida da minha neta ao conseguir um avião para que ela fosse levada a São Paulo. Ela estava com princípio de meningite e hoje é uma moça linda, saudável, que é muito grata a ele também, porque já contei a ela a história.

Então, tenho um carinho grande por ele, pela família e tudo mais. Minha família e a dele sempre se deram muito bem.

marioadolfo.com – Mas houve distanciamento, não houve?

Arthur Virgílio – Houve distanciamento, sim. É comum isso. Mas eu não fico com raiva, não guardo rancor nem alimento ódio. Não tem nada dessas histórias, não. Meu coração não tem espaço para o ódio. Tem espaço para o entendimento. Quando não dá para entender, não deu. Mas não tem espaço para o ódio.

Não é porque eu não me entendi bem com fulano que vou ficar com ódio dele. Não tem isso. Isso aí quase que é um defeito. Odiar é um defeito.

Você tem que estar sempre pronto para ver o que a pessoa tem de bom para oferecer e o que ela não tem de bom. O que não tem de bom, você não concorda. O que ela tem de bom, você concorda. Mas eu era brigado com essa pessoa? Não.


“Não sou de esquerda, não sou de
direita, não sou de bola, nem rebola,
nem carambola. Não tenho nenhuma
vinculação com isso. Eu quero
saber onde está a razão”

marioadolfo.com – A maturidade ensina muita coisa. Qual é o perfil hoje do Arthur político e do Arthur homem?

Arthur Virgílio – Os dois são a mesma coisa. Eu sempre fui conciliador e sempre fui guerreiro. Sempre fui da guerra e sempre fui da paz. Gosto muito da paz. Entendo que a gente tem que lutar muitas vezes.

Vou dar um exemplo aqui. Aloizio Mercadante era meu adversário feroz no Congresso. Tínhamos debates intensos. Escolas iam lá para ouvir o nosso debate. E, no entanto, ele é meu amigo até hoje. Eu não fiquei com raiva dele, nem ele com raiva de mim. Se eu ligar para ele agora, ele atende. E, se ele ligar para mim, eu atendo. Então, nós somos muito amigos mesmo.

O próprio Zé Dirceu certa vez chegou para mim e disse:

— Pô, você faz uma oposição muito dura!

E eu respondi que só dizia a verdade.

— É verdade. Estou aqui para isso, né?

Aí uma repórter perguntou a ele:

— De onde vem essa sua intimidade com o Arthur Virgílio?

Ele falou assim:

— Olha, ele é líder do governo de Fernando Henrique. Eu quero saber, quero que ele seja um bom interlocutor, para a gente tentar pegar o pulso do governo.

Aí a repórter insistiu:

— O senhor tem algum exemplo dessa afinidade que eu possa publicar?

Então Zé Dirceu respondeu:

— Ah, vou dar uma que pode ser que não agrade a todo mundo. Eu enfrentei a ditadura e ele também. Eu era líder estudantil em São Paulo e ele era líder estudantil no Rio. Então, eu queimei carro da polícia na repressão a uma manifestação. E ele fez a mesma coisa no Rio. Então, essa é a nossa maior ligação.

Quer dizer, nós nos juntamos na hora de enfrentar uma ditadura. E depois discordamos na hora de fazer o governo do país. Mas isso não impedia que eu conversasse com as pessoas. Não impedia que eu dialogasse. Não impedia que eu obtivesse vitórias históricas contra o presidente Lula.

No caso da CPMF, por exemplo. Ele pensou que ia ser uma barbada. Fiz meu primeiro discurso às três horas da tarde. E o último, às quatro e meia da manhã do dia seguinte. Aí não passou.

Foi como La Pasionaria — pseudônimo de Dolores Ibárruri, uma das principais líderes do Partido Comunista da Espanha e símbolo antifascista durante a Guerra Civil Espanhola, de 1936 a 1939, que combateu as tropas rebeldes do general Francisco Franco. Disseram a ela: “Você vai morrer. Eles estão muito mais numerosos do que nós aqui e vamos morrer”. Ela falou assim:

— ¡No pasarán!

Neste momento da entrevista, Arthur se emociona e enxuga as lágrimas.

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De direita, de centro ou de esquerda?

marioadolfo.com – O senhor se considera um político de centro, mais à direita ou à esquerda?

Arthur Virgílio – Eu? Olha, eu não sou exatamente de centro. Eu também não estou preocupado. Acho que já passei por essa fase das ideologias. Não sou de esquerda, não sou de direita, não sou de bola. Nem rebola, nem carambola. Não tenho nenhuma vinculação com isso. Eu quero saber onde está a razão.

marioadolfo.com – Mas, na última eleição, em uma decisão que surpreendeu muita gente, o senhor declarou apoio e voto ao presidente Bolsonaro. O senhor se arrepende disso ou não?

Arthur Virgílio – Não. Eu votei e ele nem ganhou sequer. Isso que eu digo: eu não guardo essas coisas. Eu não o vejo como um homem ideal. Não vejo o Lula como uma pessoa ideal também, tampouco.

Tanto que uma pessoa que era até próxima do Bolsonaro, que é o Tarcísio Gomes de Freitas, acho que mereceria a chance de ser candidato a presidente da República. Muito bem. O Zé Agripino me convenceu de que nós iríamos lá porque tínhamos uma dificuldade muito grande, naquela altura, de dar um voto ao Lula. Tanto o Zé Agripino quanto eu.

Nós fomos lá e ele nos recebeu muito bem. E assim aconteceu. Ainda dei colaboração para ele no debate da Globo. Mas você pergunta a mim: “Você é Lula?”. Eu digo: não. “É Bolsonaro?”. Eu digo: não. Eu sou mesmo é amazonista, amazonensista — risos.

marioadolfo.com – Para encerrar, o senhor ainda almeja algum cargo majoritário? Governador, prefeito...

Arthur Virgílio – Olha, o futuro, quem diz é o futuro. Estou muito concentrado em ser um bom parlamentar federal, se o povo realmente me conduzir para o Parlamento, que imagino que possa me reconduzir.

Depois, o futuro é o futuro. Sou muito de ver o que é mais conveniente para o meu Estado em primeiro lugar, para o Brasil junto com o meu Estado. Não fico pensando na conveniência para mim. Fico pensando na conveniência para o meu Estado e para o meu país. É isso!

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A Manaus pós-Arthur

marioadolfo.com – Quer deixar alguma mensagem para o eleitor? Ou ainda não pode?

Arthur Virgílio – Não posso mandar uma mensagem direta ainda, porque a campanha só começa em 16 de agosto, o dia em que começa tudo. Mas quero dizer que estou de volta para a política.

E dizer também que agradeço, Mário Adolfo, a você, que é um amigo e irmão. Irmão e amigo, né? E agradeço ao seu filho, Marcus Vinícius. Manda um abraço para o Mário Adolfo Filho, que trabalhou comigo. Deu-me muita honra trabalhar ao lado dele.

Você é um grande repórter, um grande jornalista. E você faz jornalismo sério. Isso é uma coisa muito boa, porque o verdadeiro jornalismo está na independência, está na seriedade, está na capacidade que você tem de captar a verdade, publicar a verdade. E, quando vê uma injustiça, publicar a injustiça, denunciar a injustiça. Quando vê a possibilidade de paz, não ser contra a paz.

Enfim, quero me despedir dos seus seguidores do portal e deixar um abraço muito afetuoso a todos.

A campanha começa, efetivamente, a partir do dia 16 de agosto. Até lá, eu não menciono essa história de captar voto, nada disso, não. Até lá, eu respeito a lei integralmente mesmo. Então, tudo bem. Vamos lá!

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